Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008
Faltas-me

Foto: Jana Lorca (1000imagens.com)
no meu percurso, por vezes, encontro travessões.
autênticos pecadilhos que me fazem mais alma
infindáveis horas que se atropelam no teu olhar indiferente.
mas tu esqueces-te que todo mundo sabe…
grita que somos perpétuas constelações da mesma galáxia nua.
chocalho os passos trémulos (simples transeuntes).
agora acredito... estou ausente do teu pensamento.
mesmo que a cidade ao redor se inundasse com o meu nome,
para ti, eu sempre nasci com a alma partida
por vezes sinto-me impotente de me trocar de pele
para ser o teu meu.
intransigentemente teu, quase sempre nunca eu!
Outras, paras-me o tempo e assobias-me um vento,
soprando-me para a imensidão desse mundo ausente de ti.
por favor, ao menos devolve-me uma asa
e assopra-me para a distância.
sinto-me só. tudo parece imenso… faltas-me.
faltas-me… no abraço faltas-me.
sinto esvair-me, diluir-me incrustado à arestas.
desgastar-me de tanto usar-me para ser teu.
falta-me o teu toque, o teu gesto
contornas-me o arrepio na espinha,
mas o certo é que sempre confundo.
já não sei se fui eu que me perdi ou fui eu que te encontrei.
mesmo assim, eu sei que ainda andas por aí.
descalça soletrando cada mosaico da sala,
distraída acariciando pedaços das paredes da casa,
perpétua inundando o quarto com o teu perfume,
só não sei onde me escondes… apenas vivo de sinais teus.
sou teu, mais do que a pertença de qualquer corpo à alma,
mais do que a pertença das palavras à folha,
mais do que aquela madrugada em que dançamos à chuva,
mais do que no crepúsculo em que te disse… amo-te!
Mais… muito mais.
muito mais do que à cada gesto em que um novo gesto se abre,
faltas-me.
sinto-me:
música: Estampado - Ana Carolina
Sexta-feira, 2 de Maio de 2008
Ausência

Foto: Guilherme Limas
já não tenho o rito de encarreirar palavras
nascê-las em mim e faze-las navegar por rios de tinta.
já não tenho a nostalgia a destapar uma pestana do crepúsculo
desfolhar o entardecer entrançado entre a geometria de sombras de persianas velhas
encravadas nas pálpebras das janelas de um casebre
já não tenho o caiar do cheiro nas paredes graffitadas de relentos
mostrá-las minhas, confessá-las tuas (ainda é-me difícil não falar de ti)
transparecer o mesmo olhar numa outra vida
gritar por outra voz o mesmo grito
amachucar a alma para que me caiba noutro corpo
amordaço a vida para que não me doa além, num outro passo.
sem mares nem ares que me corroam… esvoaço.
livre na gávea de um mastro sobre ondas de veludo
gritando para dentro de mim um sopro que não me doeu ali.
o rito de bajular a vida é o mesmo de adejar a liberdade do aceno
se ao menos hoje ainda te pudesse ter mesmo que aos pedaços,
por frestas a borboletares-me na liturgia das estações do ano.
se ao menos hoje não paralisasse no Inverno em que partiste,
e ao menos o gesto parasse e estagnasse naquele último beijo
eu incrustaria o momento no tempo para que não me doesse um ano inteiro.
Palavras vindas de um sopro ao ouvido
que boiaram leves como um beijo,
quietas como uma recordação
numa manhã aposentada no entreposto de uma vida.
Toca-me enquanto ainda vivo.
RdN
29/04/2008
Cidadela
10h48m
sinto-me: 
???
música: The Cure - Boys Don´t Cry
Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
Enquanto há

Maria Eugénia Pontes
há poemas que me amanhecem
encostados à um balcão no fio do luar.
há poemas que me adormecem sonhando o equilíbrio das insónias,
coçadas de velhas de tanto amadurecerem à cabeceira dos teus olhos.
há traços aflitos no costume das ondas,
saliências no brusco dos passos.
há pedras no fundo que medem um palmo de riso,
remando a saudade na quietude do gesto.
há ventos com tranças que trespassam como lanças;
persistências remendadas na rebentação
deste mar a brincar de agrilhoar as estrelas.
há gritos que suportam silêncios velhos como assobios;
soletram a vastidão da intermitência de um arco-íris
que se escoa pelo ralo de um dedo.
há gritos sem equilíbrio; há ventos sem tranças;
há poemas que soletram a persistência;
há pedras desarrumadas, ladrilhadas em tanta berma.
amanhã, enquanto há, há-de haver um tinteiro que se escoará dos meus olhos.
Ruy de Nilo
21h11m
16/08/2007
Viana
sinto-me: 
Tired
música: Beatriz - Ana Carolina
Sábado, 19 de Janeiro de 2008
Um afundar no amar-te
José M G Pereira
e quando o tempo for diferente,
rasgando espíritos, emendando pecados
terei um resguardo que me fará gente.
tenho em frente um firmamento que me acena eterno.
tenho gastos os olhos do tempo. poeirentos de gestos.
tenho-te assim... rebuscada em meu dentro.
sofrendo em bocados (fatias de vento sem tempo), iludindo o passado,
imaginando-o um futuro contigo...
rastos meus no traço, equilibrando um moinho de papel.
tens o cheiro do trigo entrelaçado com fumaça de trincheira.
descolando um adeus na aldraba o aceno.
é a imagem durável nos passos do pensamento.
hoje garatujo a razão de me ocupares no limiar de cada sensatez.
hoje tenho novo passo, nova cadência...
amedronta-me não ser capaz de sonhar um laço amadurecido por ti.
tu que tanto soubeste sobreviver, ser madura por mim. tu...
tu que em mim encontraste a tua urdes - eterno opiáceo.
faltou-me um soluço para mudar o embaraço da onda. faltou-me ar.
Ruy de Nilo
Viana (19h08m)
04-12-2007
sinto-me: Baço e maduro
música: Bia
Quarta-feira, 30 de Agosto de 2006
O Rosto da Chuva já tem livro - Contos

Photo: Ruy de Carvalho Simões
Trata-se de um livro de contos sobre Angola, retratando uma realidade que eu próprio vivi, outras ouvidas, acrescentando-lhes, é certo, um inevitável tracejar de ficção e misticismo - até porque talvez não pudesse, não devesse e não quisesse fugir deste tentáculo intrínseco, em particular à cultura angolana, e em geral à cultura Bantu - , procurando retratar Etnias, zonas tribalizadas, subculturas, línguas que nos identificam como povo, níveis vários da língua portuguesa e civilizações tradicionais.
Um universo semântico cheio de tentações (e de riscos, é verdade), no intuito último de, simbólicamente, reunir essa diversidade nas mesmas fronteiras, fortificando a noção de que somos unos e indivisíveis.
De outro modo, o povo angolano, ao longo da sua curta e conturbada história, já deu provas de saber esquecer. Todavia, tal não significa ignorar. Essas histórias, agora compiladas em livro, pretendem consciencializar, recordando-nos "o quanto nos doeu o parto da paz".
Pretendi, no âmbito de uma prosa substantiva, de conotação aberta, enriquecida pela incorporação de novas palavras, estruturar uma linguagem transgressiva, ousando reinventar a língua portuguesa.
Como disse Manuel Ferreira, "esta vem sendo e continuará a ser a estrada maior dos prosadores angolanos: a criação de uma linguagem angolanizada".
Lançamento e apresentação: ... 23 de Setembro de 2006
Local: .............................................Feira do Livro da Amadora
Hora: ..............................................................................15H00m
Para adquirir o livro:
- Fnac do C. Comercial Colombo: € 14.00;
- Pelo Blog: € 11.50 + portes de envio (e-mail rfcsimoes@.hotmail.com)
Ruy de Nilo
sinto-me:
Sexta-feira, 11 de Agosto de 2006
O Rosto da Chuva

É sempre numa terra. E sempre distante da minha realidade.
Apenas está apegada ao meu imaginário por histórias com velhice e sem tempo;
com muitos contos do conto das gentes…uma terra já com história adulta.
Nessa terra cacimbada, ainda tem cheiro dos meus passos, da minha pele.
Sempre a tenho a diambular-me no pensamento.
Tem a minha vida sentida com o peito. Tem-me descalço.
Tem a última radiografia do meu esvoaçar no ar
já calçado com os sonhos de dormir.
Tem o chuviscar infinito tracejado de feridas. Essa terra desconheceu a minha curvatura, mas espera por mim na gávea da espuma,
que se desembrulha no eterno abraço do mar com o meu chão.
Essa terra que me cabe no coração…à ela tenho uma ligação de filho.
Se ela sofre, eu sofro no calado do seu sofrimento. Ela escorre-me no respirar.
- Chegamos! Vês esta terra até ao infinito? È desta terra que vos falo.
Esta terra com casinhas vermelhas e pretas…aqui...do lado direito do mapa.
Esta é a minha terra . O que achas?...Dei-lhe o nome de "rosto da chuva".
Ruy de Nilo
11/08/2006
23h31m
(Casa)
sinto-me: 
Com a alma dorida! Desalmada.
música: Pixis - Whwere is my mind
Quinta-feira, 10 de Agosto de 2006
Espíritos do sonho

o desfolhar da manhã fecunda a penumbra com a claridade.
sou entrelaçado pelos primeiros laços de sol,
que se espreguiçam no ar, tocando uma nuvem recém-nascida.
sei bem que no meu olhar ainda adormece a insónia,
mas tenho que imaginar-me desprovido de meia alma.
repito-me ao som da guitarra que me falta a tua voz,
que tenho medo de a esquecer pronunciar
(de que se me entorpeça…).
tenho medo que o sonho do susto, do ir dos teus passos,
possa ser verdade num agora e espaçar para sempre o meu roçar.
tenho medo de adormecer na inocência,
de sonhar suportar a imensidão da nossa voracidade,
e acordar na exactidão do espelho.
…descobrir que eu já não sou tu,
que a realidade mudou de direcção e escondeu o rosto,
tenho medo que num qualquer reconstruir do dia
(em que as minhas pálpebras insistem em vigília)
se apague uma luz no firmamento da escuridão.
tenho medo de não sonhar a tua despedida…de me despedir dela.
tenho medo de me desabituar da tua essência.
descobrir que está tudo acabado, que o sentimento dissecou.
descobrir que tão desmesuradamente nos apetecemos
que prematuramente nos esvaziamos de nós,
algures nas nossas trocas aflitas de almas.
descobrir que a verdade mudou de direcção e escondeu o rosto.
Ruy de Nilo
10/08/2006
07h22m (Casa)
sinto-me:
música: Evanescence - Everybody's fool
Sexta-feira, 7 de Julho de 2006
Letras com palavras rachadas

Foto: photo.box.sk
sinto-me ausente dos sons em berros de formatura
impondo ritmos aos corpos serpenteados de suor.
recolhi-me às escadas da vontade da letra.
a letra sentou-se do meu lado, escreveu-me um poema:
acrescentei um lábio ao dedo, afoguei-o num toque da língua
e escrevi num dos degraus: "tenho descosido o lado esquerdo da alma.
o corpo? dei-o a um mendigo que tremia com o frio da minha dor".
depois, olhei a fuligem no rosto do indicador e vi o reflexo do fundo do meu vazio.
estou preso ao que mais temo das minhas extremidades...os meus passos.
por mais que eu me puxe, sempre mergulho na poeira da caminhada.
sempre que evito o escorregar de uma decisão,
sempre sou muito mais mim de encontro à escuridão.
arranho a solidão que me busca. a busca arranha a solidão.
escorrendo nas paredes de cada pequeno calar que espreita à cada gesto
sinto-me um espectador do mundo. desconheço onde estou,
mas sei que o mundo cambaleia por baixo do parapeito da minha janela.
ali vai a procissão da distância! "lá vai o abraço... logo atrás vai o beijo!
olha a ternura!... do outro lado vem a saudade.
o meu amor vai com ela de braço dado.
quanto me faltou dizer-lhe que ela me faltava e que eu sei que lhe faltei?!
a verdade é que a vida corre...e eu o passageiro errado na berma do carril do vagão.
sendado na pena de um sopro de vento, flutuo um aceno na lentidão do ar.
plantei um panfleto no canto da "boca" de uma pomba. partiu-se o caule.
escritos no verso das minhas unhas riscadas pescam pedaços de olhares,
simples diagonais remendadas de branco com histórias do sussurro do abrupto
07/07/2006
07h22m
Ruy de Nilo (Alfornelos)
sinto-me:
música: Spandau Ballet
Sábado, 1 de Julho de 2006
À caminho do Céu

Foto: Autor desconhecido
hoje vesti o fato sombrio. uma linha solta no pulso chamou-me soturno.
aceito-o, mas prefiro estar perto da minha última morada e escorregar num tombo abafado.
é-me mais cómodo para o passo garantir um lugar carcomido.
espero-a com a virtude dos pacientes,
muitas vezes tentado pelo vício dos ansiosos, é certo.
todavia, enquanto isso, toda a vida que sobrevier ao meu corpo
será apenas uma condescendência da morte.
essa, a minha poesia,
é fruto de uma estranha saudade
que nem eu sei como chegou, como entrou nem porque ficou.
sei apenas que da avenida vi-a assomada à minha janela apregoando nostalgia.
porquê?! não sei. nada disse, ninguém perguntou, nem sequer neguei.
ela é o abismo entre o rastilho amadurecido e o ventre vazio de gente,
que estranho grito exalam as minhas impressões digitais
para que um tal fulano pincel,
desconhecido de qualquer proximidade da recordação minha,
me capte a alma com a objectiva da sua tela,
montando no seu cavalete alado o portfolio da minha alma?
à cada trote, chiava o tripé cansado de tantos duelos com tantos modelos
à medida que sucediam paletas desafiando a perfeição cozida em fornos a lenha.
Dessa fornalha saíam curvas desalinhadas e rectas desaprumadas;
e por mais veloz que fosse o pente,
acordava sempre atordoado na curvatura da nuca.
Dessa fornalha saíam pães esfomeados com ossos à mostra a roerem-nos a côdea;
saíam mestiços sem pai nem mãe, nem pátria que os parisse;
saíam os negativos das cores do arco-íris autenticadas com tonalidades de escuridão;
saíam estradas descalças com os calcanhares a derraparem na curvatura dos passeios;
os tais passeios do progresso,
impregnados de mendigos esperando no final do mês um prato de esmola.
saíam cadáveres dos seus casulos,
cada um enfatuado com a sua cruz debaixo do braço,
e por menos um ano de vida, recebiam de troco o prolongamento de um suspiro final
em busca de uma sandes de silêncio para filhos há muito empanturrados de nada.
ao domingo saíam à rua as prostitutas em fila indiana com archotes,
lambendo uma labareda colhida lá na última migalha da chama do poente
e procuravam de porta em porta fregueses que as contestassem.
Dessa fornalha saíam cachorros que miavam, pássaros sem asas
saídos das cartolas de mágicos com números rotos de podres.
de uma vez, na noite do circo dos homens,
uma assistente foi trespassada por uma espada enferrujada.
ouviu-se ainda o berro da espada
no segundo em que se partiu.
da assistente,
só o pulso lhe ouviu um último suspiro.
ouve quem dissesse que de tanto ancorada,
engordou e não coube na caixa.
“Ouvi dizer que algumas até pagavam um centavo por uma fábula”, segredou-me uma vez o porteiro.
“Que exagero...!”, disse para o meu confidente.”É verdade Sr. Correia!”
“Então pense comigo.Com tanta ventania, o normal não seria que encontrasseem miolos arrefecidos?!”
“A verdade é que não encontra. Nem vestígios de gritos, nem vestígios de lágrimas”
ou sequer restos de um toque. Nada! O que me diz a isso?!”
“Esses é que sabem tudo e compram tudo. Até o dinheiro!”, disse-lhe.
escorregando a última mão no final do corrimão do rés-do-chão, despedi-me.
“Adeus. Até logo! Que alguém o proteja!”
Dessa fornalha, chuviscavam labaredas de bocas abertas,
sorvendo abelhas nas tabernas das trincheiras.
gritavam "hurras" hasteando os punhos cheios de bandeiras embriagadas.
Desta fornalha saíam os atrasados do inferno,
algemados por baionetas por trás de grades feitas com espingardas.
repreendi a bala e espreitei-a no fundo, entre os dedos.
Desta fornalha saíam os candidatos ao purgatório,
contando passo a passo os ponteiros da vida de uma madrugada,
esperando tirar a primeira senha que os levará para o longe do longe da fundura do nada,
em que os vitoriosos são os que alcançam um nada mais vazio que os atrasados
Desta fornalha saíam os operários das minas do inferno,
acotovelando-se para experimentarem a fobia da claridade.
sinto-me:
música: Bob Marley - Jammin
Sábado, 24 de Junho de 2006
A claridade da redenção
Foto: Tiago Estima
para quê dizer adeus
quando ainda há tanto para nos darmos
quando ainda há tanto para nos ensinarmos
tanto para nos apreendermos
tanto para nos amarmos?
para quê um choro
quando ainda existe desmesurado coração
quando o beijo nasce de impulsos distraídos?
tanto pedir-te...tanto cometer o hábito da lágrima.
tanto gritar à dor para que me transpareça a alma.
para quê reconciliarmo-nos
quando somos eternos amantes viciados no retorno
quando sempre entardeço o embalo no abraço da tua pele
quando somos os predestinados desencontrados no destino?
tanto que nos fomos posse que prolongamos o futuro do instante.
e quando a manhã for crescida
teremos as almas lavadas com suor do tempo
as almas transpiradas nos passos do rumo.
tanto o céu acendido...tantas as estrelas moribundas.
tantas aquelas que moravam na rua da tua meninice.
sinto-me: