Deixa a noite escorregar nesse vão de breu azul.
Deixa o tempo esvair-se nesse ralo de tempo.
Deixa que cada gota seja um dilúvio em teus braços.
Quando chegar a dor eu vou sorrir de amor.
Vou voar no mundo e adormecer nos teus lábios.
Roubar momentos. Trajar o anoitecer no delinear dos teus olhos.
Adormecer pecados. Traçar as rotas de amar-te. Morder-te os seios.
Deixa que eu te alveje por dentro. Te ame como errante.
Deixa-me rastos que te almejem.
Deixa o vento ludibriar-nos à mesa e acostumar-nos aos contos,
porque hoje tem um luar que luareja em demasia.
‘’Se te amasse como vivo por te alcançar
O sol tardaria todo amanha’’.
RdN
Luanda
21.02.2012
00h22
Para a Candy… minha mulher. Minha vida!
Autor: Antonio Ramos
Tanto me almejei que abdiquei de uma paixão por um grande amor.
De tanto me alhear perdi a poesia.
Escorregou-me pelo furo da algibeira.
Talvez nas valetas por onde andei.
Talvez por tanto amor em tao pouco desamor. Do peito só um suspiro.
Descasquei-me de outra vida. Repeti-me em palavras.
Moldei-as entre os dentes.
Enrosquei-me, bem juntinho, ao pé do mundo.
Amadureci o rasto que me deixou o teu piscar de olhos.
Por tanto tempo andei em contramão em direcção a mim.
Nada foi tão verdadeiro como a paixão pela poesia e os poemas.
Nada é tão doloroso como a mímica das palavras.
A irreverência do súbito.
Nada é tão obstinado como a palavra que transparece a alma.
Que decalca o contorno.
Na paixão nada é tão abrupto como a busca.
Nada é mais longe que a quietude do silêncio.
Então de onde me vem tanta solidão?
Tanto de mim comigo que só existo eu em mim?
À cada sorriso, por viver um grande amor é com menos dor que me dou por paixão.
Já e tarde.
Os frangalhos de galhos gemem o vagaroso do vento, vacilando o gesto.
Será que é por dentro que me escrevo ou apenas me ausento lento?
Já me basta. É tua a madrugada que ameaça chuva.
É tua a lágrima que escorregou o rímel.
São teus os pedaços de tempo que envelheceram as palavras,
que enrugam os anos. Sou teu.
Serão teus os beijos que profiro nos versos.
Serão tuas as madrugadas que vigio.
Por quem mais vou tão longe?
Ruy de Nilo (RdN)
14.02.2012
00h45m
Zango
Foto: Guilherme Limas
Maria Eugénia Pontes
há poemas que me amanhecem
encostados à um balcão no fio do luar.
há poemas que me adormecem sonhando o equilíbrio das insónias,
coçadas de velhas de tanto amadurecerem à cabeceira dos teus olhos.
há traços aflitos no costume das ondas,
saliências no brusco dos passos.
há pedras no fundo que medem um palmo de riso,
remando a saudade na quietude do gesto.
há ventos com tranças que trespassam como lanças;
persistências remendadas na rebentação
deste mar a brincar de agrilhoar as estrelas.
há gritos que suportam silêncios velhos como assobios;
soletram a vastidão da intermitência de um arco-íris
que se escoa pelo ralo de um dedo.
há gritos sem equilíbrio; há ventos sem tranças;
há poemas que soletram a persistência;
há pedras desarrumadas, ladrilhadas em tanta berma.
amanhã, enquanto há, há-de haver um tinteiro que se escoará dos meus olhos.
Ruy de Nilo
21h11m
16/08/2007
Viana
José M G Pereira
e quando o tempo for diferente,
rasgando espíritos, emendando pecados
terei um resguardo que me fará gente.
tenho em frente um firmamento que me acena eterno.
tenho gastos os olhos do tempo. poeirentos de gestos.
tenho-te assim... rebuscada em meu dentro.
sofrendo em bocados (fatias de vento sem tempo), iludindo o passado,
imaginando-o um futuro contigo...
rastos meus no traço, equilibrando um moinho de papel.
tens o cheiro do trigo entrelaçado com fumaça de trincheira.
descolando um adeus na aldraba o aceno.
é a imagem durável nos passos do pensamento.
hoje garatujo a razão de me ocupares no limiar de cada sensatez.
hoje tenho novo passo, nova cadência...
amedronta-me não ser capaz de sonhar um laço amadurecido por ti.
tu que tanto soubeste sobreviver, ser madura por mim. tu...
tu que em mim encontraste a tua urdes - eterno opiáceo.
faltou-me um soluço para mudar o embaraço da onda. faltou-me ar.
Ruy de Nilo
Viana (19h08m)
04-12-2007
Photo: Ruy de Carvalho Simões
Trata-se de um livro de contos sobre Angola, retratando uma realidade que eu próprio vivi, outras ouvidas, acrescentando-lhes, é certo, um inevitável tracejar de ficção e misticismo - até porque talvez não pudesse, não devesse e não quisesse fugir deste tentáculo intrínseco, em particular à cultura angolana, e em geral à cultura Bantu - , procurando retratar Etnias, zonas tribalizadas, subculturas, línguas que nos identificam como povo, níveis vários da língua portuguesa e civilizações tradicionais.
Um universo semântico cheio de tentações (e de riscos, é verdade), no intuito último de, simbólicamente, reunir essa diversidade nas mesmas fronteiras, fortificando a noção de que somos unos e indivisíveis.
De outro modo, o povo angolano, ao longo da sua curta e conturbada história, já deu provas de saber esquecer. Todavia, tal não significa ignorar. Essas histórias, agora compiladas em livro, pretendem consciencializar, recordando-nos "o quanto nos doeu o parto da paz".
Pretendi, no âmbito de uma prosa substantiva, de conotação aberta, enriquecida pela incorporação de novas palavras, estruturar uma linguagem transgressiva, ousando reinventar a língua portuguesa.
Como disse Manuel Ferreira, "esta vem sendo e continuará a ser a estrada maior dos prosadores angolanos: a criação de uma linguagem angolanizada".
Lançamento e apresentação: ... 23 de Setembro de 2006
Local: ........................................
Hora: ........................................
Para adquirir o livro:
- Fnac do C. Comercial Colombo: € 14.00;
- Pelo Blog: € 11.50 + portes de envio (e-mail rfcsimoes@.hotmail.com)
Ruy de Nilo
É sempre numa terra. E sempre distante da minha realidade.
Apenas está apegada ao meu imaginário por histórias com velhice e sem tempo;
com muitos contos do conto das gentes…uma terra já com história adulta.
Nessa terra cacimbada, ainda tem cheiro dos meus passos, da minha pele.
Sempre a tenho a diambular-me no pensamento.
Tem a minha vida sentida com o peito. Tem-me descalço.
Tem a última radiografia do meu esvoaçar no ar
já calçado com os sonhos de dormir.
Tem o chuviscar infinito tracejado de feridas. Essa terra desconheceu a minha curvatura, mas espera por mim na gávea da espuma,
que se desembrulha no eterno abraço do mar com o meu chão.
Essa terra que me cabe no coração…à ela tenho uma ligação de filho.
Se ela sofre, eu sofro no calado do seu sofrimento. Ela escorre-me no respirar.
- Chegamos! Vês esta terra até ao infinito? È desta terra que vos falo.
Esta terra com casinhas vermelhas e pretas…aqui...do lado direito do mapa.
Esta é a minha terra . O que achas?...Dei-lhe o nome de "rosto da chuva".
Ruy de Nilo
11/08/2006
23h31m
(Casa)
o desfolhar da manhã fecunda a penumbra com a claridade.
sou entrelaçado pelos primeiros laços de sol,
que se espreguiçam no ar, tocando uma nuvem recém-nascida.
sei bem que no meu olhar ainda adormece a insónia,
mas tenho que imaginar-me desprovido de meia alma.
repito-me ao som da guitarra que me falta a tua voz,
que tenho medo de a esquecer pronunciar
(de que se me entorpeça…).
tenho medo que o sonho do susto, do ir dos teus passos,
possa ser verdade num agora e espaçar para sempre o meu roçar.
tenho medo de adormecer na inocência,
de sonhar suportar a imensidão da nossa voracidade,
e acordar na exactidão do espelho.
…descobrir que eu já não sou tu,
que a realidade mudou de direcção e escondeu o rosto,
tenho medo que num qualquer reconstruir do dia
(em que as minhas pálpebras insistem em vigília)
se apague uma luz no firmamento da escuridão.
tenho medo de não sonhar a tua despedida…de me despedir dela.
tenho medo de me desabituar da tua essência.
descobrir que está tudo acabado, que o sentimento dissecou.
descobrir que tão desmesuradamente nos apetecemos
que prematuramente nos esvaziamos de nós,
algures nas nossas trocas aflitas de almas.
descobrir que a verdade mudou de direcção e escondeu o rosto.
Ruy de Nilo
10/08/2006
07h22m (Casa)
Foto: photo.box.sk
sinto-me ausente dos sons em berros de formatura
impondo ritmos aos corpos serpenteados de suor.
recolhi-me às escadas da vontade da letra.
a letra sentou-se do meu lado, escreveu-me um poema:
acrescentei um lábio ao dedo, afoguei-o num toque da língua
e escrevi num dos degraus: "tenho descosido o lado esquerdo da alma.
o corpo? dei-o a um mendigo que tremia com o frio da minha dor".
depois, olhei a fuligem no rosto do indicador e vi o reflexo do fundo do meu vazio.
estou preso ao que mais temo das minhas extremidades...os meus passos.
por mais que eu me puxe, sempre mergulho na poeira da caminhada.
sempre que evito o escorregar de uma decisão,
sempre sou muito mais mim de encontro à escuridão.
arranho a solidão que me busca. a busca arranha a solidão.
escorrendo nas paredes de cada pequeno calar que espreita à cada gesto
sinto-me um espectador do mundo. desconheço onde estou,
mas sei que o mundo cambaleia por baixo do parapeito da minha janela.
ali vai a procissão da distância! "lá vai o abraço... logo atrás vai o beijo!
olha a ternura!... do outro lado vem a saudade.
o meu amor vai com ela de braço dado.
quanto me faltou dizer-lhe que ela me faltava e que eu sei que lhe faltei?!
a verdade é que a vida corre...e eu o passageiro errado na berma do carril do vagão.
sendado na pena de um sopro de vento, flutuo um aceno na lentidão do ar.
plantei um panfleto no canto da "boca" de uma pomba. partiu-se o caule.
escritos no verso das minhas unhas riscadas pescam pedaços de olhares,
simples diagonais remendadas de branco com histórias do sussurro do abrupto
07/07/2006
07h22m
Ruy de Nilo (Alfornelos)
. Por amor
. Ausência
. O Rosto da Chuva já tem l...
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