Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012
Por amor

 

 

Deixa a noite escorregar nesse vão de breu azul.

Deixa o tempo esvair-se nesse ralo de tempo.

Deixa que cada gota seja um dilúvio em teus braços.

 

Quando chegar a dor eu vou sorrir de amor.

Vou voar no mundo e adormecer nos teus lábios.

Roubar momentos. Trajar o anoitecer no delinear dos teus olhos.

Adormecer pecados. Traçar as rotas de amar-te. Morder-te os seios.

 

Deixa que eu te alveje por dentro. Te ame como errante.

Deixa-me rastos que te almejem.

Deixa o vento ludibriar-nos à mesa e acostumar-nos aos contos,

porque hoje tem um luar que luareja em demasia.

 

‘’Se te amasse como vivo por te alcançar

O sol tardaria todo amanha’’.

 

 

RdN

Luanda

21.02.2012

00h22

 

Para a Candy… minha mulher. Minha vida!

 

 

 


sinto-me:
música: Tom Jobim: Desafinado

publicado por Lancelote às 21:50
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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
Desencontros
Desencontros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Autor: Antonio Ramos

 

 

Tanto me almejei que abdiquei de uma paixão por um grande amor.

De tanto me alhear perdi a poesia.

Escorregou-me pelo furo da algibeira.

Talvez nas valetas por onde andei.

Talvez por tanto amor em tao pouco desamor. Do peito só um suspiro. 

 

Descasquei-me de outra vida. Repeti-me em palavras.

Moldei-as entre os dentes.

Enrosquei-me, bem juntinho, ao pé do mundo.

Amadureci o rasto que me deixou o teu piscar de olhos.

 

Por tanto tempo andei em contramão em direcção a mim.

 

Nada foi tão verdadeiro como a paixão pela poesia e os poemas.

Nada é tão doloroso como a mímica das palavras.

A irreverência do súbito.

Nada é tão obstinado como a palavra que transparece a alma.

Que decalca o contorno.

 

Na paixão nada é  tão abrupto como a busca.

Nada é  mais longe que a quietude do silêncio.

Então de onde me vem tanta solidão?

Tanto de mim comigo que só existo eu em mim?

 

À cada sorriso, por viver um grande amor é com menos dor que me dou por paixão.

 

Já e tarde.

Os frangalhos de galhos gemem o vagaroso do vento, vacilando o gesto.

Será que é por dentro que me escrevo ou apenas me ausento lento?

Já me basta. É tua a madrugada que ameaça chuva.

É tua a lágrima que escorregou o rímel.

 

São teus os pedaços de tempo que envelheceram as palavras,

que enrugam os anos. Sou teu.

Serão  teus os beijos que profiro nos versos.

Serão tuas as madrugadas que vigio.

 

Por quem mais vou tão longe?

 

Ruy de Nilo (RdN)

14.02.2012

00h45m

Zango


sinto-me:
música: Depeche Mode

publicado por Lancelote às 00:45
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Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008
Faltas-me
 

 
Foto: Jana Lorca (1000imagens.com)
 
 
no meu percurso, por vezes, encontro travessões.
autênticos pecadilhos que me fazem mais alma
infindáveis horas que se atropelam no teu olhar indiferente.
mas tu esqueces-te que todo mundo sabe…
grita que somos perpétuas constelações da mesma galáxia nua.
 
chocalho os passos trémulos (simples transeuntes).
agora acredito... estou ausente do teu pensamento.
mesmo que a cidade ao redor se inundasse com o meu nome,
para ti, eu sempre nasci com a alma partida
 
por vezes sinto-me impotente de me trocar de pele
para ser o teu meu.
intransigentemente teu, quase sempre nunca eu!
 
Outras, paras-me o tempo e assobias-me um vento,
soprando-me para a imensidão desse mundo ausente de ti.
por favor, ao menos devolve-me uma asa
e assopra-me para a distância.
sinto-me só. tudo parece imenso… faltas-me.
 
faltas-me… no abraço faltas-me.
sinto esvair-me, diluir-me incrustado à arestas.
desgastar-me de tanto usar-me para ser teu.
falta-me o teu toque, o teu gesto
 
contornas-me o arrepio na espinha,
mas o certo é que sempre confundo.
já não sei se fui eu que me perdi ou fui eu que te encontrei.
 
mesmo assim, eu sei que ainda andas por aí.
descalça soletrando cada mosaico da sala,
distraída acariciando pedaços das paredes da casa,
perpétua inundando o quarto com o teu perfume,
só não sei onde me escondes… apenas vivo de sinais teus.
 
sou teu, mais do que a pertença de qualquer corpo à alma,
mais do que a pertença das palavras à folha,
mais do que aquela madrugada em que dançamos à chuva,
mais do que no crepúsculo em que te disse… amo-te!
 
Mais… muito mais.
muito mais do que à cada gesto em que um novo gesto se abre,
faltas-me.

 


sinto-me:
música: Estampado - Ana Carolina

publicado por Lancelote às 17:02
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Sexta-feira, 2 de Maio de 2008
Ausência

Foto: Guilherme Limas

 

já não tenho o rito de encarreirar palavras
nascê-las em mim e faze-las navegar por rios de tinta.
já não tenho a nostalgia a destapar uma pestana do crepúsculo
desfolhar o entardecer entrançado entre a geometria de sombras de persianas velhas
encravadas nas pálpebras das janelas de um casebre
 
já não tenho o caiar do cheiro nas paredes graffitadas de relentos
mostrá-las minhas, confessá-las tuas (ainda é-me difícil não falar de ti)
transparecer o mesmo olhar numa outra vida
gritar por outra voz o mesmo grito
amachucar a alma para que me caiba noutro corpo
 
amordaço a vida para que não me doa além, num outro passo.
sem mares nem ares que me corroam… esvoaço.
livre na gávea de um mastro sobre ondas de veludo
gritando para dentro de mim um sopro que não me doeu ali.
o rito de bajular a vida é o mesmo de adejar a liberdade do aceno
 
se ao menos hoje ainda te pudesse ter mesmo que aos pedaços,
por frestas a borboletares-me na liturgia das estações do ano.
se ao menos hoje não paralisasse no Inverno em que partiste,
e ao menos o gesto parasse e estagnasse naquele último beijo
eu incrustaria o momento no tempo para que não me doesse um ano inteiro.
 
 
 
Palavras vindas de um sopro ao ouvido
que boiaram leves como um beijo,
quietas como uma recordação
numa manhã aposentada no entreposto de uma vida.
Toca-me enquanto ainda vivo.
 
RdN
29/04/2008
Cidadela
10h48m

 


sinto-me: ???
música: The Cure - Boys Don´t Cry

publicado por Lancelote às 08:25
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Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
Enquanto há

 

Maria Eugénia Pontes

 

há poemas que me amanhecem

encostados à um balcão no fio do luar.

há poemas que me adormecem sonhando o equilíbrio das insónias,

coçadas de velhas de tanto amadurecerem à cabeceira dos teus olhos.

 

há traços aflitos no costume das ondas,

saliências no brusco dos passos.

há pedras no fundo que medem um palmo de riso,

remando a saudade na quietude do gesto.

 

há ventos com tranças que trespassam como lanças;

persistências remendadas na rebentação

deste mar a brincar de agrilhoar as estrelas.

há gritos que suportam silêncios velhos como assobios;

soletram a vastidão da intermitência de um arco-íris

que se escoa pelo ralo de um dedo.

 

há gritos sem equilíbrio; há ventos sem tranças;

há poemas que soletram a persistência;

há pedras desarrumadas, ladrilhadas em tanta berma.

amanhã, enquanto há, há-de haver um tinteiro que se escoará dos meus olhos.

 

 

 

 

Ruy de Nilo

21h11m

16/08/2007

Viana

sinto-me: Tired
música: Beatriz - Ana Carolina

publicado por Lancelote às 04:31
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Sábado, 19 de Janeiro de 2008
Um afundar no amar-te

José M G Pereira

 

 

e quando o tempo for diferente,

rasgando espíritos, emendando pecados

terei um resguardo que me fará gente.

 

tenho em frente um firmamento que me acena eterno.

tenho gastos os olhos do tempo. poeirentos de gestos.

tenho-te assim... rebuscada em meu dentro.

 

sofrendo em bocados (fatias de vento sem tempo), iludindo o passado,

imaginando-o um futuro contigo...

rastos meus no traço, equilibrando um moinho de papel.

 

tens o cheiro do trigo entrelaçado com fumaça de trincheira.

descolando um adeus na aldraba o aceno.

é a imagem durável nos passos do pensamento.

 

hoje garatujo a razão de me ocupares no limiar de cada sensatez.

hoje tenho novo passo, nova cadência...

amedronta-me não ser capaz de sonhar um laço amadurecido por ti.

 

tu que tanto soubeste sobreviver, ser madura por mim. tu...

tu que em mim encontraste a tua urdes - eterno opiáceo.

faltou-me um soluço para mudar o embaraço da onda. faltou-me ar.

 

 

Ruy de Nilo

Viana (19h08m)

04-12-2007


sinto-me: Baço e maduro
música: Bia

publicado por Lancelote às 23:35
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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2006
O Rosto da Chuva já tem livro - Contos

Photo: Ruy de Carvalho Simões

 

Trata-se de um livro de contos sobre Angola, retratando uma realidade que eu próprio vivi, outras ouvidas, acrescentando-lhes, é certo, um inevitável tracejar de ficção e misticismo - até porque talvez não pudesse, não devesse e não quisesse fugir deste tentáculo intrínseco, em particular à cultura angolana, e em geral à cultura Bantu - , procurando retratar Etnias, zonas tribalizadas, subculturas, línguas que nos identificam como povo, níveis vários da língua portuguesa e civilizações tradicionais.

Um universo semântico cheio de tentações (e de riscos, é verdade), no intuito último de, simbólicamente, reunir essa diversidade nas mesmas fronteiras, fortificando a noção de que somos unos e indivisíveis.

De outro modo, o povo angolano, ao longo da sua curta e conturbada história, já deu provas de saber esquecer. Todavia, tal não significa ignorar. Essas histórias, agora compiladas em livro, pretendem consciencializar, recordando-nos "o quanto nos doeu o parto da paz".

Pretendi, no âmbito de uma prosa substantiva, de conotação aberta, enriquecida pela incorporação de novas palavras, estruturar uma linguagem transgressiva, ousando reinventar a língua portuguesa.

Como disse Manuel Ferreira, "esta vem sendo e continuará a ser a estrada maior dos prosadores angolanos: a criação de uma linguagem angolanizada".

 

Lançamento e apresentação: ... 23 de Setembro de 2006

Local: .............................................Feira do Livro da Amadora

Hora: ..............................................................................15H00m

 

Para adquirir o livro:

- Fnac do C. Comercial Colombo: € 14.00;

- Pelo Blog: € 11.50 + portes de envio (e-mail rfcsimoes@.hotmail.com)

 

Ruy de Nilo

 

 


sinto-me:

publicado por Lancelote às 18:40
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Sexta-feira, 11 de Agosto de 2006
O Rosto da Chuva

 

É sempre numa terra. E sempre distante da minha realidade.

Apenas está apegada ao meu imaginário por histórias com velhice e sem tempo;

com muitos contos do conto das gentes…uma terra já com história adulta.

Nessa terra cacimbada, ainda tem cheiro dos meus passos, da minha pele.

Sempre a tenho a diambular-me no pensamento.

 

Tem a minha vida sentida com o peito. Tem-me descalço.

Tem a última radiografia do meu esvoaçar no ar

 já calçado com os sonhos de dormir.

Tem o chuviscar infinito tracejado de feridas. Essa terra desconheceu a minha curvatura, mas espera por mim na gávea da espuma,

que se desembrulha no eterno abraço do mar com o meu chão.

 

Essa terra que me cabe no coração…à ela tenho uma ligação de filho.

Se ela sofre, eu sofro no calado do seu sofrimento. Ela escorre-me no respirar.

- Chegamos! Vês esta terra até ao infinito? È desta terra que vos falo.

Esta terra com casinhas vermelhas e pretas…aqui...do lado direito do mapa.

Esta é a minha terra . O que achas?...Dei-lhe o nome de "rosto da chuva".

 

 

Ruy de Nilo

11/08/2006

23h31m

(Casa)


sinto-me: Com a alma dorida! Desalmada.
música: Pixis - Whwere is my mind

publicado por Lancelote às 23:59
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Quinta-feira, 10 de Agosto de 2006
Espíritos do sonho

 

o desfolhar da manhã fecunda a penumbra com a claridade.

sou entrelaçado pelos primeiros laços de sol,

que se espreguiçam no ar, tocando uma nuvem recém-nascida.

sei bem que no meu olhar ainda adormece a insónia,

mas tenho que imaginar-me desprovido de meia alma.

 

repito-me ao som da guitarra que me falta a tua voz,

que tenho medo de a esquecer pronunciar

(de que se me entorpeça…).

tenho medo que o sonho do susto, do ir dos teus passos,

possa ser verdade num agora e espaçar para sempre o meu roçar.

 

tenho medo de adormecer na inocência,

de sonhar suportar a imensidão da nossa voracidade,

e acordar na exactidão do espelho.

…descobrir que eu já não sou tu,

que a realidade mudou de direcção e escondeu o rosto,

 

tenho medo que num qualquer reconstruir do dia

(em que as minhas pálpebras insistem em vigília)

se apague uma luz no firmamento da escuridão.

tenho medo de não sonhar a tua despedida…de me despedir dela.

tenho medo de me desabituar da tua essência.

 

descobrir que está tudo acabado, que o sentimento dissecou.

descobrir que tão desmesuradamente nos apetecemos

que prematuramente nos esvaziamos de nós,

algures nas nossas trocas aflitas de almas.

descobrir que a verdade mudou de direcção e escondeu o rosto.

 

 

Ruy de Nilo

 

10/08/2006

 

07h22m (Casa)


sinto-me:
música: Evanescence - Everybody's fool

publicado por Lancelote às 07:47
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Sexta-feira, 7 de Julho de 2006
Letras com palavras rachadas

Foto: photo.box.sk

sinto-me ausente dos sons em berros de formatura

impondo ritmos aos corpos serpenteados de suor.

recolhi-me às escadas da vontade da letra.

a letra sentou-se do meu lado, escreveu-me um poema:

 

acrescentei um lábio ao dedo, afoguei-o num toque da língua

e escrevi num dos degraus: "tenho descosido o lado esquerdo da alma.

o corpo? dei-o a um mendigo que tremia com o frio da minha dor".

depois, olhei a fuligem no rosto do indicador e vi o reflexo do fundo do meu vazio.

 

estou preso ao que mais temo das minhas extremidades...os meus passos.

por mais que eu me puxe, sempre mergulho na poeira da caminhada.

sempre que evito o escorregar de uma decisão,

sempre sou muito mais mim de encontro à escuridão.

 

arranho a solidão que me busca. a busca arranha a solidão.

escorrendo nas paredes de cada pequeno calar que espreita à cada gesto

sinto-me um espectador do mundo. desconheço onde estou,

mas sei que o mundo cambaleia por baixo do parapeito da minha janela.

 

ali vai a procissão da distância! "lá vai o abraço... logo atrás vai o beijo!

olha a ternura!... do outro lado vem a saudade.

o meu amor vai com ela de braço dado.

quanto me faltou dizer-lhe que ela me faltava e que eu sei que lhe faltei?!

 

a verdade é que a vida corre...e eu o passageiro errado na berma do carril do vagão.

sendado na pena de um sopro de vento, flutuo um aceno na lentidão do ar.

plantei um panfleto no canto da "boca" de uma pomba. partiu-se o caule.

escritos no verso das minhas unhas riscadas pescam pedaços de olhares,

simples diagonais remendadas de branco com histórias do sussurro do abrupto

 

07/07/2006

07h22m

Ruy de Nilo (Alfornelos)


sinto-me:
música: Spandau Ballet

publicado por Lancelote às 05:45
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