Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2005

No salto para a ausência

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tenho os pensamentos encharcados da saliva de palavras vãs. preciso enxugar-me.
os ouvidos transbordaram e quase afoguei-me. ainda pensei em ficar mas cansei-me. estou exausto de ser. preciso aprender a inexistir, preciso limitar-me a pressentir existir.

saí a rua apenas em carne e osso, esqueci-me da gabardina de pele. nada que me importe também desde que o cheiro daquela pele lhe ficou...sempre a odiei . é verdade que sempre soube que já era Outono, mas que fazer se ainda trago o verão na algibeira?

marcho distraidamente em caminhos cutâneos.
uns são calejados, outros são degradantemente sebosos
(também os há bordados de seda)

rodopio destinos emaranhados na ponta dos dedos do cabelo, agora já enregelados, quase amputados. sei que repugna, mas é o que preciso para inexistir, para ausentar-me de sentir, poder ser apenas um apenas do algo.

outras vezes, no final da tarde de um bocejo bem perto da linha do horizonte da língua, no céu da boca ainda consigo ver aquele fiozinho de cicatriz do outro lado da face
(se eu tentasse , certamente que no contorno da quentura da lágrima ainda encontraria uma história que contar, mas falta-me a ausência da urgência em nem sequer querer reinventar-me).

vago sem passos. é apenas pura e simples vontade de exercitar o raciocínio fingindo um andar, umas vezes atravessados por becos cicatrizados, outras vezes por murais tatuados de graffitis.
lá fora, à porta dos olhos, sob o tejadilho das pálpebras, está uma chuva de vozes fingindo molhar. tenho medo.

sei que é a adrenalina antes do salto, mas essa velha córnea branca com raios de sangue, entardecendo a sonolência pincelada na íris grávida de azul que retrai todo o corpo da alma, enerva-me.
apetecia-me calar-lhe o beijo, fechar-lhe a porta e apagar o mundo.

publicado por Lancelote às 02:38
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2 comentários:
De Anónimo a 8 de Janeiro de 2005 às 14:36
fico...nem sei como fico! entra-me na pele o que escreves. E sente-se aquele frio na barriga, o formigueiro nas mãos quando se está perante um grande momento. Faz me lembrar 2 animais da mesma jaula de vida onde se respeita as palavras um do outro. Porque são grandiosas e nos enchem de Outuno. E quase jurava que toca uma flauta numa melodia que chora enquanto leio as tuas palavras. És ...faltam-me as palavras, não quero exagerar mas ...Adoro o que escreves!!myryan
(http://outrademim.blogs.sapo.pt)
(mailto:myryan@sapo.pt)


De Anónimo a 7 de Janeiro de 2005 às 18:58
Meu amigo vou tentar remediar a minha ausência com visitas mais regulares. Gostei mt do texto postado. Um abraço.Lumife
(http://fotoseimagens.blogs.sapo.pt)
(mailto:lumife@sapo.pt)


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