Quinta-feira, 21 de Abril de 2005

Quanto do que nos demos valeu a pena?

fa04_t.jpg
by Vincent Obyrne

quantas vezes relembrei-te em versos já esbatidos
escritos em guardanapos de papel
na mesa de um café qualquer?

quantas vezes procurei-te e no espelho não me encontro?
quantas vezes fui estranho em mim para mim mesmo
mesmo vivendo nas margens desta folha de papel

e num arrastar vagabundo
qual folha seca de outono
lentamente pousando no chão
ainda tento saber...

quantas vezes protestei mas com o tempo desisti,
sou proscrito neste amor
numa redoma me fechei

quantas palavras no tempo, à toa para o vento,
em ambígua esperança,
num futuro incerto mas de um presente confiante

quantos olhares cativantes
em relâmpagos de beijos-correio,
em caminhos sinuosos de abraços estonteantes

quanto de nosso corpo, nossa vida
dado por um princípio, um instante apenas,
que à qualquer custo as nossas gargantas gritam para atingir esse fim

(e revejo o álbum da minha)

quantas dúvidas e incertezas
quantas incursões às cegas,
nos caminhos nunca antes percorridos do teu corpo nú

quantas vezes renasci
nos orgasmos aflitos, numa cama perdida
de um quarto, só nosso por horas, à soleira deste mundo

e fito-me atado ao tempo
questionando o meu futuro-presente
que foi o meu passado...e recordo sorrindo

...o fumo nos pulmões de cigarros pensativos
com sentimentos afogados
em mais bebedeiras sem sentido

as telas na mente e as canções no peito,
a tinta jogada ao acaso em paredes de cal
mas que em nosso pensamento formava um quadro perfeito

as lágrimas ferventes caídas num chão de gelo,
os passos trémulos com medo do abismo,
o caos dos meus neurónios imaturos.

e numa despedida tácita,
novamente pergunto-me:
será que valeu à pena?

as vezes em que substutuímos baionetas por bouquetes de rosas vermelhas,
as vezes em que fizemos da guerra amor
sob lençóis bordados de paz?

as vezes em que entregamos os nossos corpos
à gélida chuva de inverno
em nome de algo louco, puro...único?

então porque te tenho na solidão da minha voz
ao pronunciar baixinho o teu nome,
no luto da minha dor, a existência da tua ausência?

amanheci o rosto sem reluzência, o que é próprio dos opacos notívagos
e no cristalizar de uma lágrima minha entre o côncavo de duas pétalas fingindo-se mãos,
senti que valeu a pena, tão só por aquele quase sentir de abraço me envolvendo a mágoa.

27/10/1995

Lisboa

03H40m


publicado por Lancelote às 21:43
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