Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2005

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batucadores.gif Grupo Etnográfico da Humpata (Huíla/Angola)

I


Na primeira vez que lhe vi e ouvi, foi num jango nas margens do Rio Cuito. Era já mais-velho que vencera a idade do tempo. Nem mesmo Yangue (Deus, em Umbundu) sabia quando lhe fez. Se lhe deram pais, nem já esses, subsistindo num hoje, saberiam o nome que lhe puseram. Nunca que nunca, vivente algum reclamou lhe saber pronunciar o nome baptismal. Ele mesmo, também, há muito que, se esquecera do seu próprio nome e, por isso, todos só lhe chamavam o Sekulo. Nas palavras de quem assim lhe referenciava, se notava, lhe tinham evidentes respeitos, mais que de um Sekulo. Se podia dizer: ele era o Sekulo dos Sekulos! Mas mais que tudo, enigmação era lhe saber procedência. Ninguém lhe sabia da origem, nem nunca lhe questiúncularam, entre a voz na língua da boca, para saber. No acotovelar da curiosidade da resposta, os miúdos, em recuos e avanços, tentavam fazer a pergunta inquietosa, mas os mais-velhos ramalhavam a voz: - Eheheheheheh! Xé minino, num faz isso, é desrespeito no Sekulo! Uns diziam que ele era de mais longe, um sobado longínquo, perto já das portas do findar deste mundo; terras perto da bordadura de um rio do tamanho de mil Cuitos. Um rio sem margens lodomacentas, que ele próprio, nas suas histórias, dizia tem água de todos os rios. Mais que isso. A água que lhe corre é do sabor do sal. - Haka!!! Mas como é que pode? De onde é que se pode tirar tanto sal para salgar tanta água? E para quê uma água com sal? Num se bebe; o cacusso e o bagre em tal líquido se lhe morrem, para quê então tanta água para tanto nada que fazer com ela? Só pode ser visão de quem esteve ou é de um outro mundo. Outros, quando se falava do rio, no rumorejo próprio de sanzala, se dizia era donde ele sempre saía. Na boca dos mais inventivos crentes, se afirmava que ele era o próprio rio na figura da gente, o companheiro do vento, era essência sapiente do tempo. Única dúvida que sempre me sobreveio, confesso-vos, sempre me misteriou, era sua aparição: se apresentava sempre, vindo de um nenhures inesperado e silencioso na noite calada de bulício dos dias. Discussão complexa ou simples, de intenção ou de inocência empanturrada de ignorância, assentamento é que ele era Sekulo com século, e que só vinha de noite nas sanzalas no corpo de velho, para descansar. - Mas descansar de quê? - Descansar com as conversas no jango, da solidão que é a correnteza incessante e monótona de se ser o Cuito (de facto, de dia nunca se lhe viu andamento em qualquer caminho poeirento, nem esfumar de cachimbo na porta de uma qualquer cubata, como era usança dos mais-velhos com da sua aparente distante idade. Nada. Embora a fama da sua existência, já começasse no Mandembo, a sua longevidade era de intrigância ainda maior). Se dizia que quando ele chegava, se via um deslizar que rasgava, recortava, cosia e recosia a superfície da água do Cuito, parecendo o deslizar do jacaré num tanto suave à escuta da presa, noutro tanto abrupto na pega da presa. Depois, se lhe via onda lenta que reflectia como um espelho, se espreguiçar no ar, desconstruir transparência e construir o corpo caduco que, já assim, se nos apresentava naqueles serões. Havia mesmo quem afirmava já tê-lo visto em tamanha metamorfose. Para os cépticos, aqueles lhes alegavam que tal sortilégio só podia ser na escuridão das noites, até porque também de dia o rio não se sentia descampado nem desacompanhado. Tinham-lhe por companhia, em “fimbas”, os miúdos, os pescadores em recuos de redes, as lavadeiras em sacolejos, assim, o caminhar em caudal contracurvado, até na foz dos beijos que se dava com o tal mar, se tornava menos monótono. Mas a verdade é que ele só vinha e chegava, e nunca se sabia de onde. Perguntar? “Nem que faz isso minino…! Vucê quer trazer azar na sanzala?” Nesse dia, nas próprias margens do rio que se dizia ser ele o próprio, na companhia de outros tantos miúdos, lhe implorei: - Vavô conta só uma história. Mas história de gente com gente – lhe adverti. Baixou a cabeça, procurando desfolhar as páginas de recordandos guardados no pináculo da sua memória, me olhou fixo com aqueles olhos sem reflexo de alma, parecia olhar de tchingange, depois de um tossicar breve que sempre fazia, nos começou: - Vocês são de um tempo de mais paz, mas aqui… – muxoxou o velho, se pondo o olhar inumano numa qualquer relembrança distante – num foi sempre assim. No princípio, esta era terra ausente, vazia de gente, de plantas, de animais, se existia por si apenas, até que veio um ano de muita seca, incomparável com a própria seca da soma da seca de todos os sobados. Tudo morria de tanta secáridez. Depois de dois anos da fuga da chuva, apenas tinham sobrado, da matança da sede, Onuíla, uma bela e esbelta impala do norte, e Cuílo, poderoso leão das savanas do Leste. Depois de um tanto procurarem num caminhar deslongínquo, ávidos de água, encontraram esta terra desconhecida. Aqui, descobriram a correnteza, ainda criança, do Cuito que nunca secara, e em margens opostas, sem que se avistassem, saciaram a secura da garganta. Mas o reflexo da lua no rosto do rio, iluminou e lhes apresentou um no outro com encantamentos que só o cintilar da calmia do Cuito consegue. Desde então, se entrelaçaram em promessas de amores eternos. Bestializaram-se, ainda mais, numa afecção desmesurada, sequiosa de paixão como a água para molhar aquela seca. De tanto bem-querer raro, de monumental sentimento, nasceu Angola, menina com a beleza arrepiadora de Onuíla, e N’gola, menino com a força de vencer de Cuílo. Nesta terra, antes vazia, apenas cheia de si, à medida que Angola e N’gola nas suas correrias cresciam, o Cuito lhes seguia alagando as margens que lhe floresciam, anunciando o fim da mortífera seca, à que ele lhe sobrevivera. Nessa altura, o rio já crescera mais que lagoa, se perdia já de vista no seu correr e, à medida que se alongava, de brincadeira, para entreter a monotonia do seu correr, levava o reflexo de Angola e N´gola em banhos e chapinhações no seu manto aquífero. Mas essa mesma corrente, na inocência do seu entretenimento, chegou nos povoados de perto e nos de longe e, que no encantamento do reflexo de Angola e N´gola, trazia gente desses povoados afastados. Aquilo era multidão, mais que povo, era gente de perder de vista. Mesmo nas terras onde o Cuito não chegava, de ouvir falar de boca em boca a notícia se espalhava e queriam conhecer tal beleza quase inumana. Estavam enfeitiçados na beleza de Angola reflectida nos olhos do Cuito E esse continuava a levar, levava…levava numa margem a imagem da bela Angola de olhos amendoados, cabelo escorreito e escuro de breu, de pele cor de ébano, moscada, amansada em leite de cabra no primeiro raiar de sol, com seios arredondados e ternurentos, pendendo seguros no peito amissangado e gingando o corpo serpenteado como as contracurvas do Cuito. Na outra margem, levava a imponência de guerreiro de N’gola., a sua altivez de Rei cuanhama. Na margerm que levava a imagem de um, razia os respectivos adeptos e pretendentes. Para qualquer canto onde molhasse, levava parecia era mensageiro, e cada vez vinha mais gente, principalmente por causa de Angola. Mas Angola…era só uma. E como ela…não havia mais nenhuma. Não tardou, logo os pretendentes se iniciaram em discussões de razões, de direitos e pretensões. Depois de ofensas, uns se pegaram de pedras e atiraram nos outros. Os outros, na vingança, lhes arremessaram paus. Os uns descobriram o ferro e, quando lhe descobriram mais mortal que paus e pedras, essas, por sua vez, chamaram a morte para muitos outros. Esses, na raiva, destruíram as lavras dos uns e veio a fome. No meio da barafunda entre uns e outros, se inventaram as armas, e, na ambição de vencer, mesmo que já sem a certeza de saber o quê, porquê e p’ra quê, nasceram as balas. Nesse tempo, as balas falavam e tinham nomes: haviam balas de raiva, balas de enganos de um amanhã melhor, balas de fome em olhos pueris fatigados de fome, balas do sacrifício de um nós por um eu, de um vós por um tu e de um eles que se submetem a um ele. Todas elas eram lacaias da morte com um único desejo e aspiração: de entrar no peito de alguém, se alojar efemeramente e, de ferimento moroso, lhes roubar de vida. Era a submissão da paz aos pés da ignorância, em nome de uma guerra, trauteada em voz de bala, na ambição de uma espingarda. Nessa demora em que as armas ainda não emudeciam, ainda que com dor de mágoa, o luto era vestimenta de moça recém casada, de mães doridas; era um tempo que a dor era demais; já num tinha vergonha de doer daquela maneira no povo. Se dormia assustado, se acordava com lágrima já seca de impotência – “às vez” mesmo, essa se cansava de pingar. Eram uns anos em que nessa terra, o sangue dos seus filhos lhe lavou se escorrendo com cheiro da morte. Nunca que tanto que nos doeu a dor. A guerra se alimentou da dor da viúva, da lágrima da mãe, do choro do órfão, todos descalceando na avenida da ausência de um ente-alguém. A própria terra, da vergonha dos homens, à cada golpe se reduzia a chão, se desmoronava em simples pedra, já quase num havia dia. O céu se enegrecia, cada vez mais, de todo ódio das balas. Nessa altura, a morte se abanqueteou, se empanturrando de padecentes e mutilados, do sofrimento, do nada que restou para muitos que o Cuito trouxe para verem a beleza de Angola. Agora, os uns e outros já se perderam na origem da zanga, e nesse anteontem se intrometeu mais que uma ambição: a chuva de um luto que já num levava a lágrima da perda da vida…era já roubo da vida aquilo que levava.


II


Por um momento preciso parar no conto. Recordo um passado saudoso de vozes que ainda hoje as busco. Num princípio que é sempre o mesmo, me atraem mas perco-lhes…incessantemente perco-lhes. Tenho a imprecisão de quem quer esquecer a amofinação da tristeza e a aflição de quando se tem a precisão do que se almeja. Nessa altura, me lembrei dos meus tempos de candengué nas terras do litoral na beira do mar – o tal rio do tamanho de mil Cuitos com água com sabor de sal. Lembrei das brigas com encanqueiros nas barrocas do Miramar, das pelejas de futebol no Rangel na terra batida do campo do S. Domingos. Lembrei de Mariana, mulher crescida e instruída com os anos, envelhecida da vida, “amantisada” com Feliz Mino, camionista (vida dura num tempo cruel). Amor aí era de verdade (e só podia ser, para conseguir subsistir nesses tempos em que a faina de cada acordar era engendrar a sobrevivência desse dia), que embora só se consumando uma vez por mês, quando ele vinha do norte, de Cabinda, Mariana lhe esperava com a ansiedade de um primeiro amor, de um primeiro beijo. Feliz Mino, na correria que lhe corroía o coração da saudade, deixava o próprio Camião ali, em frente de casa, ainda, em cima, com os toros por serrar na “Panga-Panga”, e, ficava ainda, dois ou três dias na matança de saudades. Depois de confirmada que a cadência do coração na última partida era a mesma da recente chegada, Feliz Mino ia como chegava, na calada da noite. Nessa escuridão que se interpõe no calcorrear do dia, em que criança no sono já não ouve o adeus de paixão dos corpos dos adultos, entre ele e ela…apenas essa noite testemunhava aquele trejeito de Mariana com a ajuda do mês a lhe morrer na palma da mão, essa mesma mão em que queria fechar Feliz Mino, nem que só por um minuto, num aperto com beijo floreado antes de um próximo mês. Um mês chegou em que Feliz Mino lhe faltou. Mariana se inquietou. Rodeou saber notícias e encontrou-as. Na “Panga-panga”, Caquarta, amigo comum, lhe disse que num ataque da FLEC lhe incendiaram o camião com os toros e tudo. “Feliz Mino se foi, mó Deus – gritou uma lágrima silenciosa que lhe escorreu descuidada”. O que lhe sobrou foi uma fotografia meio queimada retirada das cinzas que Feliz Mino sempre transportava, e que por pudor, não entregaram na viúva: era Mariana e ele no sorriso de um abraço, entre uma qualquer partida e chegada. Entre as tremor do choro e os pêsames que lhe desejavam, Mariana, cabisbaixa, se repetia: “lhe dividir sempre lhe aceitei, mas porque me tiraste, Nzambiuué?”. Esses eram uns tempos que os pariu… Me lembrei de recordações quase perdidas da minha memória – quase, porque história que se passou mesmo…essa num esqueço – e lhes pus aqui neste conto com voz, com vontade de ser poema, mesmo que de um pensamento cansado de velho. Huuummm…não consigo evitar chuvinhar uma lágrima no canto do olho…me lembrei de Zeca, aiué!!! Nos dois, ainda miúdos, ele menos que eu, de farda da O.P.A. e arma de pau no ombro. Marchávamos, lado à lado, com a voz no mesmo coro do hino e olhávamos a bandeira, essa, a mesma que cobriu o teu caixão na hora da partida… Nesse inesperado momento em que ouvi a minha voz me sair do pensamento, mesmo que de baixinho, mas com ainda dar p’ra ouvir, te homenageio companheiro. Onde quer que estejas, por ti direi: PRESENTE CAMARADAS!


III


Voltando no conto, intempestivamente o velho tremeu, parecia uma menos sarada ferida foi cutucada com um relampejo da recordação. Se deteve na narração e se pôs naqueles olhares, de quem só viveu é que pode sentir. O velho Sekulo nos olhou, se sorriu devagar da nossa espasmantação. Se confessou: “a velhice tem a vantagem da sabedoria e o contentamento do que se viveu nos anos que foram, mas também tem o desgosto do sofrimento. Mesmo que se quisesse, num dá…está tudo guardado na mesma cabeça, mesmo que as vez o esquecimento lhe quer tapar”. Nos olhou ainda com a meiguice que só os cabelos caducos dão, parecia na fundura daquela alma, se regozijava de não termos vivido naquele tempo da história. Tossicou breve no velho hábito de iniciar histórias e retomou a narração: - Humhumhum! – exclamou, ainda recordando – …foi muita…muita vida que se perdeu, e isso, foi durante anos que se passou assim. Em cada ferimento, Angola morria de mais um bocado, se entristecia, principalmente no sabimento que era dela que se guerreavam. E, aqueles que lutavam, nem percebiam que a definhes se acumulava tanta que ela perdia o seu encantamento. Mas numa noite, ainda mais cheia de noite, que parecia mais é escuridão de cacimbo, mesmo a lua, se amostrava receosa dessa noite de abismo sem fundo, e se escondia entre as nuvens, espreitando vez em quando – parecia tinha medo de fazer sua tarefa de aluar os namorados, lhes molhar de luajar, inebriar, lhes incitar para amar. Mesmo os soldados, lhe repararam que estava de modos acanhados: “então lua também se envergonha da noite? – se riram – Deixa lá, ela é que sabe. Até esse escuro, mesmo, ajuda então. Assim é só chegar de emboscada e…trrraaatátátátátátá!”. Verdade mesmo é que essa noite, para os mais enamorados, os mais resolutos de namoro, os insaciáveis, essa num era noite convidativa de fazer o coração pulsar forte, se embrenhar num beco ou numa esquina e se amar com quase sem pudor. Nessa noite, o vento zunia rápido, ligeiro, chiava assobios de aviso. As árvores, mesmo as mais arrogantes, se contorciam e acatavam o alerta na sua passagem. Se escondiam, vergadas em si dessa noite indistinta. As ruas se despiram de gente, de sons, de luzes, do tremelear das chamas de lamparinas, dos cheiros, de tudo. Só existia mesmo , ainda, aquele ora rio, ora mar da lua envergonhada que, no seu camuflar entre as nuvens, de vez em quando ainda molhava as ruas. Essas mesmas, que mostravam uma nudez despropositada no que era normal, se reportavam num qualquer tempo em que, elas mesmas ainda não eram ruas. Só mesmo os grilos, esses persistentes , insistiam em dar quase vida cricrilando desbocadamente, mas mesmo o seu cricri era desabitual. Tudo conspirava para ser o dia que nos mudou.


IV


 Depois de recordar os tantos companheiros que há muito lhes ofereci um adeus saudoso, isso num tempo com um outro demorar de passar as horas; depois que recordei os meus tempos de meninice, estou cheio de vazio, sinto-me descontinuado de competências para dar seguimento na tinturação da folha desse conto. A única coisa que me sobra no vespeiro do cocuruto, e que ainda lhe protejo do esquecimento, é aquele dia…aquele que nos reconstruiu como gente. Já na entrada em casa, ouvi o avô Chipuaka, entre dois tossicares nicotínicos, muxoxar um resmungo imperceptível. Se esfregou nos braços, p’ra aquecer as palma das mão nos cotovelos e reclamou de novo p’ra dar de se lhe ouvir: - Porra, agora aqui frio é anssim?! Nem que se avisa…só chega e se esfria num repente?! Nesse instante, com a rapidez de duas batidas do coração, o mais-velho nem se acabou de reclamar…se ouviu um estrondo desconhecido dos nossos ouvidos, era novo e estranho. Em mim, ainda não se ouviu nada assim até hoje. Todos , cada qual no seu ouvido, tentavam descobrir o lugar de dimanagem de tal som. Cada qual calado, nos entreolhamos interrogonumbáticos, parecia buscávamos respostas de assentimento no conhecimento de tal som, uns nos olhares dos outros. Ninguém se encorajou, sozinho, de procurar saber. Esperavam audácia os uns dos outros (e eles que tanta audácia tiveram na violência da guerra…agora temiam avisos de um qualquer estrondo). O velho quebrou a indecisão: - Vamos todos em conjunto. De um qualquer modo, temos mesmo que saber o que é que se passa nesse estrondo. Tudo em cuidadoso passo, fila indiana, uns se escudando nos outros e os outros nos uns, espreitando por cima do ombro uns dos outros, nos achegamos na porta, mas nada de insuspeito. Mais uma vez, o velho Tchipuaka incitou: - Hehe, Chico…vê então o que é isso!!!? - Mas num viram mesmo mais ninguém para fazer verificação? – respondeu o temeroso Chico. - Anda lá, abre a porta – se impacientaram os outros, nem lhe dando tempo de suspiro. Quando se escancarou a porta, parecia o mundo lá fora virou pintura num quadro. A porta era a tela sobre um cavalete de dobradiças, e, desde a primeira partícula de ar que se expirava para fora, ao atingir esse novo mundo, se ganhava de cores que até então para nós inexistiam assim. A espantação foi geral…Ali estava o universo a ser pincelado pela mãe natureza. Lhe corrigia imperfeições, restaurava feridas da brutalidade dos homens e reconstruía desgastes do tempo. A noite, antes escura de negro, agora era branco-luz. As ruas despidas de povo, agora se vestiam de um branco reluzente. Perante os nossos olhos arregalados de gente com susto, impavidamente caíam flocos de neve. A tia Caulina, ainda esfregou os olhos. Acreditou que os companheiros embutidos nas órbitas da nascença, com a idade lhe traíam…mas nada. Perante nova revisão ao estado das coisas…se mantinha aquele manto de flocos de gelo, sereno, imperturbável na sua queda. Mesmo já na rua, tia Caulina, a mais incrédula, ainda lhe pôs as mãos na própria neve – as mãos, se houvesse engano dos olhos, iam de demonstrar esse engano. E quando, mesmo aquelas se tocaram com a branca neve de candura e lhe sentiram gélida, perceberam que a beleza pode ser fria e a dor ardente. Quantas vezes nos entregamos ao sofrimento da dor sem sentir a dor do sofrimento? Até hoje, nada me explica o que vi. Sei apenas que nessa noite, em Mavinga, no Cuando-Cubango, no Cuito, em Ondjiva, enfim nas terras sob o jugo do luto da guerra, a brancura se espalhou mais que praga. Por momentos, as armas calaram e as balas murcharam. Os irmãos desavindos entre uns e outros, ainda de AK47 na mão, olhavam no céu. Se sentiram ridículos naquela posição de matar. Agora pareciam crianças graúdas, envergonhadas de travessuras absurdas. Naqueles rostos cofiados de corpos rudes e corações endurecidos, perante tanta brancura pura se emocionaram. Os olhos rasaram de uma outra água que já não sabiam existir neles e os abraços se entrelaçaram, tentando se entender. Quem não sorria, desconseguiu de não sorrir e os dias mais dias ficaram. As balas, essas há muito que murcharam no cano da espingarda, desperceberam que chegou um tempo de terminar a seca de paz, e essa foi a própria noite dos primeiros chuviscos. Como qualquer tristeza na moeda da vida, no reverso existe resguardada uma alegria.


V


Naquele tempo tempestivo que se sentia nas palavras do Sekulo, se sentiu a bonança chegar na voz, essa morrer devagarinho como no final de uma história, mas sabíamos, nós miúdos habituados a muitas histórias, sabíamos que essa não terminara ainda. Há sempre uma entoação na voz que se anuncia em final de conto e as palavras são sempre as mesmas que se apressam na saída, e essas ainda não eram palavras de “fim”. O Sekulo pareceu nos adivinhou de pensamentos. Nos olhou, se sorrindo devagar falou: - Amanhã acabo de contar. Essa já é hora de criança estar no sono. – Nos sorriu de novo, reluzindo a brancura dos dentes que davam vida ao rosto ossudo de defunto. Enquanto se abagageirava dos seus panos que pareciam nasceram com ele de tão velhos que estavam, balançou os colares de missangas no peito seco e côncavo e, antes do adeus, impreparados, lhe ouvimos dizer: - Eu sou N’gola! Vivo na outra margem do Cuito. Nós somos N’gola! Precisamos recordar-nos à cada instante que por Angola muitos perderam a vida. Para que não exista novamente um amanhã incerto, para os nós e os outros que nos virão, fica aqui a lembrança de recordar de não esquecer, porquê nos doeu tanto a dor do parto da paz. Dito isto, num passo vagaroso se afastou lá no horizonte do rio. Quase lhe vimos, no declive, parecia estava a entrar na água. Ainda lhe vimos mais uma vez, nos sorriu com aceno e se foi. Desde então, nunca mais lhe avistaram. Já mandei os meus cumprimentos com o vento, mas voltam sempre sem resposta. Num tempo depois, quando o sol já morria no poente, juro, lhe vi!... vinha sentado na proa de uma onda suave de rio, que rasgava, recortava, cosia e recosia a superfície da água do meu rio, parecendo o deslizar do jacaré num tanto suave à escuta da presa, noutro tanto abrupto na pega da presa. Essa onda tinha reflexo de espelho, reflectia os erros do passado, a dor do presente e o querer de um futuro. Depois disso, já após a minha partida, ouvi dizer que o Cuito secou abruptamente. Nem sequer era ano com seca – há quem diga que com o sangue que se verteu, só o Cuito podia lavar a terra. P.S.: Eu sou N’gola, preciso me ausentar na eternidade para que renasça Angola. O curso do rio, ninguém muda. É só num sentido, embora tenha duas margens.

Dicionário de vocábulos que foram empregues aqui:

1. Jango: local de madeira e palha, contruído em círculo, principalmente no sul de Angola, onde os habitantes das aldeias se reuniam ao serão para constarem histórias, discutir ou tomar decisões em conselho da aldeia;
2. Yangue: expressão que designa Deus em Umbundu (língua do sul de Angola); Suku Yangue ( Ai, meu Deus);
3. Sekulo: idoso, velho, sábio;
4. Sobado: em regra designa um conjunto de aldeias ou aldeia, cujo o chefe supremo é o soba ou régulo;
5. Haka!: interjeição em umbundu para designar impaciaência, irritação, espanto ou indiganação, variando em função da situação em concreto. Em português, poderemos aproximá-la ao “caramba!”;
6. Cacusso e bagre: são peixes de água doce;
7. Mandembo: localidade situada no Leste de Angola;
8. Fimba: expressão popular (calão), utilizada principalmente em Luanda (capital de Angola), para designar um mergulho no mar , num rio, num lago, etc;
9. N´gola: nome para designar um dos Reinos que veio dar o nome ao actual Estado Angolano. Tal, tem reminiscências anteriores ao período dos descobrimentos, em que os portugueses chegaram ao território, hoje designado Angola, no final do século XV. Para além desse portentoso Reino, outros tantos haviam com igual relevância nesse período, destacando-se o Reino do N´dongo, Cuanhama, entre outros;
10. Tchingange: homens fantasiados com máscaras decorativas, variando em função do tipo de comemoração (ex: uma oferenda aos Deuses e aos antepassados, uma festa , espantar um mal que assole a aldeia ou apenas por ocasião de uma qualquer festa, nascimento, etc);
11. Candengué: termo que designa criança, miúdo e advém dos termos kimbundo monandengué e monami;
12. Encanqueiros: expressão em linguagem popular (calão), para designar miúdo arruaceiro, miúdo de rua;
13. Amantisar: aquele ou aquele que se torna “oficialmente”amante de um homem ou mulher casado(a);
14. Panga-Panga: empresa nacional de transformação dos toros de madeira que eram trazido, principalmente, do norte madeireiro de Angola: a floresta do Maiombe no enclave de Cabianda;
15. Nzambi: Deus em Kimbundu (língua nacional predominante no norte de Angola;
16. Dimanagem: embora incorrectamente utilizado, é vulgarmente utilizado para designar, dimanar.


publicado por Lancelote às 13:35
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1 comentário:
De Anónimo a 16 de Fevereiro de 2005 às 19:58
levo-te comigo Ruy (outra vez)
[para os meus links]
Será, pergunto-me, que reconhecerás a mesma alma mas com outro nome?
A vantagem de mudar[e morrer] é que quando se resnasce, podemos levar para a nova vida quem nos "dá" alguma coisa...
Lyra
(http://abarcadelyra.blogspot.com/)
(mailto:notasdelyra@gmail.com)


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