Terça-feira, 30 de Novembro de 2004

Vultos avulso

1Romantico.jpg

nos lábios do beijo, senti a amargura que se ajeitava no peito.
repassei a língua nos cantos da boca, degustei-o beijo no mesmo beijo.
…nesses momentos, fica sempre um impreciso sabor da dúvida na boca molhada,
silencioso, abrupto despertar com susto, desconcertante mas simples .

…o complexo amor de quem ama, está sempre no dogma entre a saliva de hoje no beijo de ontem.
o momento daquele beijo sucumbido de quem parte, senti-o no encostar dos teus lábios efémeros, aquele ósculo com gosto mas sem paixão.
(queria tentar esquecer...mas essa mania de emalar tudo, até mesmo os sentimentos!)

só nós tínhamos o âmago trocado do um no outro.
o passado foi só nosso, gritado! o futuro para nós era (in)partilhável.
no afasto dos teus passos, em que o bater de calcanhar da sola seca, se tornava miudinho com a distância, sinto-me dissecar

…sempre soube que não era um "até já".
psiu…não…não precisas dizer…já vi o adeus do teu virar de costas no reflexo do espelho.
tu sabes…eu sempre percebi o tudo de ti mesmo antes de ti
saudade com reminiscências em outras vidas em que nos entregamos e conhecemos,

e as rugas do rosto … rasgos sinuosos do repisar nos caminhos dos anos ,
soma dos passados, em que não nos demos conta quando o presente virou passado,
estas contorceram-se em modelos disformes, impessoais - não os sabia assim possíveis.
os meus olhos marejados, expurgam o muito que ainda me restava amar-te, o pouco que havia para dizer…apenas sussurrar-te - há quem diga que chorei...

lembro-me que a noite que te levou, tinha uma brisa suave com fagulhas incandescentes
era uma noite com tanta vida e que te queria tanto como eu…
no andar de cima, embaciei o olhar da janela com o nevoeiro que te abraçou
que raiva da noite que te conquistou, tu que eras a conquistadora…raios!

sei que o que nos ficará, serão sempre sensações, estranhos raciocínios, incrédulos da sua imoralidade, impúdicos (sei que só nós tínhamos a coragem de os partilhar),
intimidade que o tempo nos conferiu, entrega massiva do corpo da alma,
mas de que valem tantas palavras partilhadas se esquecemos de prolongar o fim?
recorda-me ...será que alguma vez nos prometemos amor eterno? e nós que nos pensávamos siameses imortais pelo amor que nos tínhamos…

sei apenas que me agarro ao presente com uma paixão do passado. o futuro, para mim, é presunção de evasão.
sei apenas, que ainda hoje, sei sentir o cheiro dos teus passos, aqueles que sempre me ressoaram em insónias e sonhos,
aquele marchar de conquistadora impiedosa na sua sedução. ah, quantas vezes corri para a porta. durante algum tempo, acreditei que apenas tinhas perdido as chaves de casa.

ensaiei vezes sem conta, o algures antes da bifurcação numa calçada,
imaginava que haveria o roçar do nosso pestanejar entrecruzado,
mesmo que apenas fosse um silencioso marulhar com recordação oculta, (in)promenorizada, em que o tarde é evidente,
talvez mesmo inexistente , em que já nos damos a braços inéditos, alheios…mas mesmo assim existiríamos no mergulho do passado por baixo de uma qualquer torrente.
e eu que congeminava um futuro, sem saber que num já, estavas em fuga desses braços alheios no meu encalço

ontem no banho, distraidamente descobri no corpo as tuas impressões digitais, a crosta de gotículas daquele orvalho,
aquele que nos molhou num ontem com cheiro de terra, como a descrença dos teus passos na lonjura de mim.
hoje, arrebatei um suspiro perante os cacos de ti.
sei agora, que a minha brasa se dispersou na mesma brisa que te arrastou os cabelos negros, desarrumados, inanimados...droga, eles também eram meus!!!

vi-te…mesmo que agora um puzzle com peças soltas, ainda tinhas encanto
a tua boca com dentes juntinhos como o teu abraço apertado, embora já sem brilho, ainda sorria.
engraçado, agora apenas consigo recordar o negro entrançado dos teus cabelos, os teus dentes, pequenos gestos, pormenores
o quanto que eu dava para ver os teus cabelos espalhados ao vento e não nesse chão ensanguentado, mesmo que nos braços dessa noite que não te amparou

talvez tenha descoberto, agora, o pudor de nós, o abandono que me racha o arrependimento ,
recusa da perda, necessidade difusa de sofrer aos poucos...não sei (acho que deveria ter lutado mais por nós)
um dia desses o sussurro de um olhar ofuscou-me, disseram-me que o teu olhar em desespero me procurava, pousou num olhar qualquer e lá ficou.
apesar de me negar pensar-te…no fundo, bem no fundo daquele marulhar em que existiríamos no mergulho do passado por baixo de uma qualquer torrente,
ainda procuro os teus olhos da cor azeda escorreita do limão


= Epitáfio =

"em tardes de Inverno, quando o céu escurece,
lembro-me do teu humor cansado que só eu sabia recolher com abraço.
davamos um nó entre nós. apertado. só nosso.
parecia que os nossos corpos, foram feitos com precisão para o abraço um do outro.

no verão, lembro-me das tardes do teu desabrochar em sorriso,
alma de flor borrando de pólen o ar que espirra.
por isso, a recordação do teu olhar é apenas um consolo. falta-me o teu corpo na alma. sem ti eu sou a imprecisa tristeza disso"


Ruy de Nilo




publicado por Lancelote às 19:26
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2 comentários:
De Anónimo a 3 de Dezembro de 2004 às 00:06
RUY de NILO como um rio...As tuas palavras, entram-me pele dentro.Sinto-as como minhas. Sufoco-as tantas vezes. Brilhante apetecia-me dizer. Nem digoi mais nada porque soaria a falso, a dizer por dizer...guardo para mim...myryan
(http://outrademim.blogs.sapo.pt)
(mailto:myryan@sapo.pt)


De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 13:14
Ruy de Nilo...superas te a cada passo.
Magnifico texto...sentido...sentires com que me identifico...obrigada
A imagem é soberba já não precisas de ninguem para te inspirar...tu és inspiraçãoLuna
(http://loucuraenata.weblog.com.pt/)
(mailto:loucuraenata@hotmail.com)


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