Sábado, 20 de Novembro de 2004

Palavras Soltas

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I

habituei-me a ter os olhos molhados e injectados com os teus fluidos
que me vazam por entre os dedos, rasgam-me a carne e alagam-me a alma.
num momento queria adorinhar-te nos olhos, esvoaçar nos teus sonhos, mergulhar no teu abraço…mas apenas tatuaste-me com paixão,
muito antes daquele adeus que eu não sabia existir.
nem tu o soubeste pressagiar, tu que sempre sabias o tudo do rumo…
nesse último voo, esgotaste o coração numa ruela engarrafada da imaginação.
perdi-te no comboio da manhã, numa estação já sem Inverno. talvez já não voe mais para o sul
esse sul, agora tão ausente de ti e já sem ternura…sabes amor, sinto tanto frio esta noite…
alguém me disse que a minha pele experimenta a falta da tua e arrepia-se de tanta inexistência.
se calhar é porque já não quero mais o voo,
até porque também já não sei em que voo te abraçar.
além disso, o sul está tão triste sem ti…
sabes amor, agora passo horas a tentar encontrar-te no vazio do céu,
tentar ver esvoaçares-me um aceno, mesmo que passageiro
…mas este maldito sol que me ofusca.
ah, como me faz falta o sul contigo.

II

a minha poesia não tem cor, nem credos, nem raças. é apátrida e apartidária.
escrevo-a para que apenas a sintam, para que a possam colher no ar em que esvoaça.
nesse instante – acreditem – lá fora nada importa quando cá dentro tudo é poesia,
linguagem do cheiro com suor de gente, melodia do corpo no arranho do peito,
concertina de sabores da língua no beijo,
a cor da terra inventada na retina do olhar, enfim,
aquele momento em que o alfabeto se entrincheira na folha,
as palavras guerreiam o verso na conquista do verbo…
é aí, no transe do prazer que eu sei, que eu sinto:
em cada linha do lençol em que escrevo nas paredes deste quarto,
existe sempre mais um, alguém que procura a paz na candura de uma folha branca.
por isso vai, voa minha pequena pomba de papel,
vai conhecer o mundo e diz que a paz ainda existe e o espera na esquina do tempo que lhe virá.
foi com esperança que te fiz nas folhas daquela minha sebenta poeirenta,
aquela do meu baú, aquela em que passaste a ponta de dois dedos,
sabes que aqueles dois cortes transversais de poeira, foi tudo o que me sobrou?
lembras-te do grito com choro?

III

somos amantes fortuitos. desnudamos com pressa os orifícios do êxtase no caminho do prazer.
quero descobrir os atalhos, a sinuosidade do teu corpo e morrer da sede do teu seio.
sugo, salivo e degusto, na procura do sabor materno.
quero renascer, não já na dor do parto, mas no prazer da vida (por favor, preciso tanto disso agora…!)
quero aspirar-te, respirar-te ao mesmo tempo que inspiro e te expiro ofegante.
estudar-nos? eu sei que somos um caso único de volúpia e tu também o sabes. mas agora não, outras prioridades se impõem. talvez depois. depois daquele momento da carnificina do corpo dentro de corpo, aí sim, na lentidão felina a ronronar um afago, na hora do cigarro e do sono.
mas agora não. até porque sou incapaz de reflectir, de me encontrar e situar racionalmente.
estou num instante urgente, em que permanentemente se interpõem, em quase tudo,
a tua língua molhada, os teus lábios sem beijo apenas ânsia,
os teus dentes suaves mordiscando as orelhas erógenas, os mamilos do delírio…
agarro com a força dos punhos, o momento dos corpos retorcidos e entrelaçados na concha da alcova,
encaixados na eminente erupção do coito furtivo, sem pudor somos um no outro.
na confrangedora precursão das mãos inquietas, no abraço de nos apossarmos,
em que ao mesmo tempo reformulo uma carícia jorrada de um dedo intemporal.
aquele foi um roçar de arrepio que escorreu lentamente, aquece-me ao som do crepitar de uma fogueira,
onde crepita o meu e o teu querer-nos.
entrar?...ainda não. não me achei em mim sequer.
continuo preso ao que me queria ser em ti,
de nos damos e partilhamos na melopeia de todos os sentidos.
nesse momento, descobriremos que tudo é só conjugação
das palavras com o verbo dos sentimentos, trauteados com a fala do corpo.
mas, quer queiras ou não, as palavras aproximam-nos. é a nossa fraqueza humana.
mais vale uma paixão arrebatadora do que um amor esfriado,
embora, às vezes, as palavras se recolham, se escondam.
prometo que te convido para sair, renderei aos teus pés uma orquídea,
e prometo encontrarmo-nos nos nossos sonhos, aqueles em que nos reconhecemos
na nossa forma vulcânica de nos amarmos, abrupta e descontroladamente.
também pode ser num sonho alheio, de qualquer um. apenas quero despertar-te no crepúsculo.
tu és o sonho que esta vida me destinou realizar.
então, nesta madrugada podemos estudar o nosso caso de volúpia?

"Yo soy un coyote, en el cielo te miro
mío solo en la voz es por La Luna.”

Ruy de Nilo

publicado por Lancelote às 23:29
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3 comentários:
De Anónimo a 21 de Novembro de 2004 às 19:10
belissimo...palavras soltas ao sabor da paixão.
valeu a pena a espera.
Beijos ou melhor BesosLuna
(http://loucuraenata.weblog.com.pt/)
(mailto:loucuraenata@hotmail.com)


De Anónimo a 21 de Novembro de 2004 às 08:39
Muito bom deixar-me levar por "Palavras Soltas". Bom domingo!!!
BeijoBebel
(http://www.doidicedebebel.blogger.com.br)
(mailto:isabella_fs@hotmail.com)


De Anónimo a 21 de Novembro de 2004 às 03:32
Palavras soltas assim não se lêem apenas, não se bebem apenas... voa-se com elas...

Retribuo o beijo.souuma
(http://2sem3.blogspot.com/)
(mailto:souuma@sapo.pt)


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