Domingo, 18 de Julho de 2004

Hoje morri

Iceberg Completo.jpg

Hoje morri...
morri sem dor, morri sem mágoa.
De uma mão escorri e senti o seu toque
até o humedecer de uma gota de suor, na sua sua palma senti.

Hoje morri...
O meu corpo cremado foi lançado do pontão da ilha
e as cinzas vagaram ao vento
com palavras surdas de morte.

Hoje vi castelos de céu
tão seguros como os de pedra daí.
Adormeci sobre uma nuvem
enroscado numa estrela cadente

Vi o lugar das miragens, das raízes do céu.
No aveludar da sofreguidão que despede o sono
pinto a óleo o despontar das madrugadas
essas em que se revelam o tamanho dos dias.

Grito baixinho: Impiedade, insanidade.
Tenho um desejo escondido: liberdade, paz para nós.

Este corpo macio, frio e rígido
num enlace breve que derrapa a distância
faz confundir a magia
numa coreografia de lentidõ e silêncio

E o uivo do pranto sobre minha tumba
ribomba ao longe anunciando chuva.
Um boémio sentado, ceifando o fundo do copo
ara o terreiro plantado com acres de nada.

Hoje morri...
morri a definhar no calar na vertigem
a definhar no fundo assobio do corpo

e fico a boiar no vazio
aspergindo de uma híssope negra
E já sem medo da morte,
descortino o inferno.

E então, de vez em quando,
recordando depois de tantos anos passados
assim como o sopro das coisas que são sem razão, nem paixão
Eu sou a esquesita tristeza disso.

publicado por Lancelote às 21:27
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O dia depois do sonho (resquícios e cinzas)

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Agora sim, agora tenho que acreditar no que vejo. Depois de ceifar o último fôlego do copo de cerveja, depois de aniquilar aquele último gole que ainda respirava após o meu despertar quase desembriagado, não vi a libertação da minha alegria. Permaneceu a comum, habitual e companheira tristeza do meu fado. Apenas Atenas se desbragou nessa procurada alegria de se ser campeão.
Mas e agora como fico eu?... Eu que tanto te precisava. Eu que criei o fado porque só me sabia triste e, assim sempre me conheci... agora que me deste a provar um gosto, um sabor de alegria; agora que me levantaste da minha animosidade, da minha inércia... no instante último aniquilaste-me. Consideraste-me impreparado para euforias maiores.
Perdemos... mas então, não é verdade que a cada dia perdemos um pouco mais de tristeza bacoca. Perdemos a glória da vitória mas ficou-nos a tristeza do fado. Essa tristeza que é nossa identidade. Será que ainda somos assim? Será que não demonstramos o contrário? Então porque não vencemos?
O que é que afinal desejamos, a vitória, o sonho ou a glória?
PS: Eu...eu sou a cinza...essa que se apaga com o último sapateado do vento, por isso, espero-nos até ao nosso próximo combate. E para quem se ausentar, lá estarei e, por eles direi: PRESENTE!

publicado por Lancelote às 20:35
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Nós entre nós

Este é um blog dedicado a literatura, particularmente a prosa. É um espaço de reinvenção da língua portuguesa, em que ela se torna essencialmente dinâmica, representando movimento, sem que no entanto seja adulterada. Enrosque-se nesse desafio e dê a sua opinião sobre os textos.

publicado por Lancelote às 20:26
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...

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Este é um texto filosófico sobre o futebol. É mais uma tentativa de recriar a língua, reinventando-lhe formas e anasalamentos no mais profícuo do entontecimento. É a tentativa de verificar se resulta a música do clássico com o popular da voz, com o cuidado da língua.
Presenteio-vos com as dúvidas que me assolaram no momento da quebra do sonho do sono e o renascimento do quase pesadelo... mas para quê, se toda a dor recolhemos no fado? Para quê chorar então?
Este texto, é a vontade de exprimir o que me aflige no escuro e tenho receio de dizê-lo, mesmo que no obscuro da alma.
Viva Potugal!!!

publicado por Lancelote às 20:20
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O dia depois do sonho II

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Num ontem, me emporcalhei no lodo do rosto que esconde a vergonha …
- Sô sinhozinho, o patalão mandou lhe chamar.
Foi num hoje que ainda me alembro de não me a esquecer de te enternecer. Lhe levei na cachimónia por onde andei como embarcadiço. Lhe protegia mesmo da água salgada. Nada faria perder a minha alembradura dessa recordação com saudade de uma quase estontealegria. Foi num tempo em que a alegria de um povo se encontrava na tristeza, essa própria que foi se encontrar com a solidão. Num dia de dia, com sol de dia, as pessoas se mostravam na orgulhes de serem tristes com rostos carrancudos e duros. As pessoas se mostravam gente de mesquinhice, cochichando da amargura de quem se associedou, auto-excluí-se de ser gente civilizada.
Nesse sonho com despertar de pesadelo, lhe vivi com a alma de um nacionalizado, lhe sinto e mostrei com as lágrimas do rosto, no sofrimento da procura da vitória. Te juro! Vi as estrelas numa janela de televisão com marcas ofuscadas, tremelicantes, num sul de um ontem colonizante.
Nesse misturar de insensatez, lhe pus uma bandeira no ombro e me assumi de origens, lhes reclamei a elas … aquelas que lhes neguei, ainda ontem por não me assumirem.
Nesse ecrán, da janela do mundo lá fora, se viu o desanimo na derrota, depois promessa de vitória, mata-mata e pé-na-bunda, se viu sonho com viagem nas orlas do firmamento. Não te duvides!!!... Se viu no querer e mostrar do acampeado no mundo: Luís Filipe Scollari.
Nessa noite se derramou a notícia da tinta nos diários, nos bidiários, nos semanários de edição extra e especial. Se sugeriu e se palpitou de treinamento de bancada. Se obliteraram apostas com a morte do prometedor. Enfim …
Mas na quarta seguinte, se viu esfalfo e quesforço no caminho da quebra do cepticismo. Se convenceram de lides e vitórias; Tudo se recompôs.
Hoje, corações tremelicaram na justeza vs passado + a essência do egocentrismo. Aonde te ir buscar certeza, senão na fé da minha esperança.
Culpa-me, condena-me mas a tristeza é minha porque a tenho como profissão. Adeus.
Na hora de H, tudo se ofuscou, intranspareceu invisualmente da minha visão. Lhe chamei calundú mas o tempo se correu … e golo se esqueceu de entrar p’ra “desvorver” o que nos entrou.
Quando soo no apito o final do prazo do sonho, me olhei por dentro e dor me trespassou como ao filho da terra. De que sou feito então? Da humanidade que o tempo e dor do mundo me trespassou …!? Só sofre quem sente! Quem se entrega na certeza de que somos melhores e nos mostraremos senhores. Como falar-te que perdemos mãezinha? Já pouco ouves mas ainda te pulsa nas veias o sangue português, caravelístico e encontrador de terras do além-mar. Me fala senhora … como te dizer que Portugal perdeu se o que te anima e suporta é essa paixão desmedida?
Perdemos 1-0,mas o futuro nos reservou a festa da desmesurada de não sermos mais saudosos na nossa alegria de sermos tristes, de sermos felizes com a nossa pequenês grande de nos alegrarmos.
Perdemos … mas com altivez.

publicado por Lancelote às 19:44
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Introdução

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Como outras tantas cidades do mundo, a capital da minha terra também tem os chamados meninos ou crianças de rua. Nessa minha terra longínqua e, com tantas incongruências e displicências verbais, entendeu-se que a questão das crianças de rua não era um fenómeno social semelhante a tantos outros que infelizmente é patenteado em outras cidades deste mundo, e, optou por considerar um problema social provisório decorrente da guerra que nos ensombrava, denominando-os de deslocados. Simples crianças, simplesmente deslocadas das suas zonas de origem. Estes são os deslocados da minha terra que após a guerra ainda os há, enxameando as ruas, hoje mais que nunca. Ainda ontem ouvi chamarem-los deslocados. Hoje, um morreu como delinquente deslocado. Deslocado de si, da sociedade que o abortou e expurgou. Deslocado na maturidade e sofrimentos excessivos para a sua idade... Poderá ser o sofrimento proporcional a idade? Poderíamos impedir que o sofrimento atingisse as nossas crianças? Poderíamos emitir algo semelhante a um Bilhete de Identidade, em que cada criança pudesse sorridente e orgulhosamente exibir dizendo: " Eu sou criança e mereço aprender a crescer "; uma espécie de pacto social em que nós, os adultos, nos obrigaríamos a cumprir escrupulosamente perante qualquer criança, não apenas porque somos pais, avós, tios, amigos… mas apenas porque eles são crianças?
Nada nos dá o direito de nos abstermos de cuidar das nossas crianças e, tudo nos obriga a dar-lhes o direito de aprenderem a crescer, no seu tempo e no seu ritmo... serem apenas crianças.
PS: Há quem me chame utópico. Mas eu rio-me porque a certeza de que é possível e alcançável o que vos falo, essa, já nasceu comigo.

publicado por Lancelote às 19:13
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Manuel Só que se finou com um sorriso

Manuel! – respondia prontamente o miúdo de rua.
Mas Manuel quê? – lhe perguntavam.
Só Manuel, mesmo – respondia.
Nessa altura, já a plateia começava com espasmos de gargalhada. Mas mesmo assim, ainda o mestre-de-cerimónias lhe ripostava: Então vejo, que afinal sempre tens apelido. Manuel! O primeiro nome pelos vistos é Só – nessa altura, a plateia que esperava esse momento para zombar, se descascava em sonoras gargalhadas.
Mas Manuel, na sua ingenuidade, tentava esclarecer. Não côta. O nome que me deram foi apenas mesmo Manuel. E então se predispunha esclarecer: Meu baptismo, dicôta, foi de kimbundú. Nasci num tempo de guerra. Na pressa da fuga dos tiro, se esqueceram me dar apelido. Nem já que com alcunha fiquei.
Mas o outro, que já conhecia a estória de trás para frente e vice-versa, lhe insistia sério, sem riso ainda, apesar da plateia por cima dos seus ombros já chorar de risota: Então e o apelido dos pais, qual é?
Manuel olhava em redor, adivinhando o gozo e hesitava em dar resposta. Mas o outro, o dicôta, lhe incitava fingindo seriedade: Vá, diz lá. Pode ser que possamos te ajudar a encontrar a tua família. Sabes, aqui em Luanda, existe um sítio onde tem o registo de todas as pessoas das províncias, mesmo as que não têm apelidos. Vá, diz lá então, pá! Isso é para te ajudar, omessa!
O dengué, que entreolhava ainda meio hesitante, entre os olhos do dicôta e os da plateia trocista, responde acreditando nas palavras daquele: Hum! Se me disseram algum dia que tinham apelido, num sei. Mas também, quando nos dispersamos na mata, foi um de repente súbito que num deu p’rá preguntar.
Era nessa altura que o inquiridor, perante a espasmantação do miúdo, desatava em galhofa.
Essa era estória que se conhecia de Manuel, depois apelidado de Só. Manuel Só. Era infortúnio, por demais conhecido por todos os presentes. Mas insistiam no escárnio.
Manuel ou Manuel Só. Se deslocava sempre só, desde a dispersão da família na mata. Mesmo na metrópole citadina, tão estranha da sua senzala, em que se aconselha passo dado de mão dada com companhia, Manuel se acompanhava só dos pensamentos. Quase que nem sombra dele se lhe via. Mas lhe avisavam que essa senzala de betão tinha perigo nas suas esquina.
João Russo, mulato encanqueiro, que ganhava a vida a lavar carros nas traseiras do Trópico, e que simpatizara com o dengué calado, sem riso nem choro, lhe avisara: Xé, você ouve então. Se p’ra quem tem pai e mãe já é fodido, quanto mais p’ra nós que a vida fodeu?! Toma então cuidado Manuel. Mesmo os azulinhos, esses que são cabombas e deveriam proteger os populares, se te apanham sozinho, inda são os primeiros que te penteiam, te vumunam e, se é teu azar mesmo … hum, vais na terra vermelha. Num viste o Zico? Se embrulhou ali no areal com aqueles dois cabombas que faziam a patrulha aqui, num queria dar cumbú. Se bem que naquele dia também tava mesmo se mal, num havia carros de lavar. Olha inda então! … lhe encontraram a boiar numa praia do Benfica, ele que em vida, de vontade própria nunca que tinha ido lá. Ouve então, hem. Jikulo messo.
Manuel, na sua calma absorta, se justificava se defendendo: Eu mesmo, também, num saio dali do Serpa Pinto. Ali todos mesmo, já que me conhecem. Até mesmo os guardas da Câmara. Até o meu próprio papelão de dormir, lhe guardo ali, encostado no beco das arcadas. É só mesmo nessa zona aonde eu esmolo. Mais longe que eu vou, é só mesmo esse bocado de atravessar a estrada e vir aqui.
Manuel, camabuí na boca da frente – ainda estava a trocar os dentes de leite, na boca que há muito já num sabia o sabor lácteo –, era só mais um dos desencontrados da sorte, que se auto e denominavam de deslocados.
Se punha nos seus pensamentos sem memória, e assim se abandonava do mundo, sentado numa pedra em frente do cúbico do sô Pereira, se tornando duplamente deslocado. Só se tornava retornado, com a sacudidela do velho que assomava no portão da moradia. O ancião era reformado da Imprensa Nacional do tempo do Puto. Se lhe conhecia também fama de contestatário do sistema, no antigamente e no hoje. Havia quem dissesse que ele foi guerrilheiro na primeira região político-militar no tempo do Neto. Mas hoje, vivia já só de recordações na casa de um dos filhos. Diziam as más-línguas que, bastou lhe darem um cargo de muata no filho, para conseguir calar aquele velho reaccionário.
O mais-velho já lhe adivinhava a presença do miúdo ali. Desde há dois anos, quando o garoto aparecera ali no Serpa Pinto a pedinchar, nunca que batia a porta. Aguardava sempre a saída ou o surgir do côta no portão, e aí lhe esmolar alimento. Apesar do sô Pereira quase lhe implorar que bastava ele bater na porta, Manuel preferia esperar, aproveitando botar aquele ar de pensante nas palavras do dia, até a casa se anunciar desperta. Se justificava: Mó dicôta, eu só diambulejo por aí, desde o de manhã até no anoitecer. Pode calhar, os “bosses” da casa às vez foram trabalhar e vieram na lonjura da noite, já fatigados … então como é que eu vou acordar eles com o bater do portão no de manhã, só p’rá esmolar? O estômago aguenta sempre um pouco mais. E até a comida fica com mais sabor na espera da fome. Essa é mesmo já a vida do deslocado.
Embora Manuel já conhecesse a ríspida opinião do mais velho sobre a expressão que ele acabava de empregar, as vezes parecia se esquecia e lhe empregava na naturalidade da frase. Gostava de ouvir a reprimenda para depois ruminá-la de manhã, quando ficava naquele seu ar absorto.
Desta vez, também, não foi excepção: eu já te disse que aqui não há deslocados. – lhe relembrou, quase irritado, o velho Pereira. Então agora na tua própria terra você é deslocado porque está noutra província? Até parece que emigrou dentro do seu próprio país, popilas! Não te deixes levar na conversa desses mata-burros, gajos com frases feitas. Eles é que andam deslocados entre o que se propuseram fazer e o que fazem. Esses é que deveriam garantir, que tu, eu e outros como tu, pudessem ser angolanos completos, e de plenos direitos e deveres, em qualquer parte dessa Angola.
Manuel lhe olhava atento, mas quase tudo do dizer do côta despercebia. O velho, já de voz terna e conciliadora, lhe enrodilhou o ombro com o braço, lhe dizendo: Vá, deixa lá isso. Vamos é matabichar.
Toda gente, no Serpa Pinto, já conhecia o dengué Manuel Só. Era solicitado por quase todos, à troco de um quase nada ou de uma quase refeição.
Se alguém queria carregador das compras exaustas do mercado, chamavam o pré-adolescente Manuel Só. Para acartar água, era Manuel Só. Para deitar o lixo da fartura de alguém, era chamado o solicito Manuel Só; ele próprio se confundindo nos restos, procurando algo aproveitável, que quase sempre conseguia. Já sô Pereira, lhe dizia que o lixo dos ricos é a abundância dos pobres.
Até nas lanchonetes, nos bares da zona, se solicitava os préstimos esporádicos do dengué Só. Numas, depois de expropriado do que ainda lhe restava, a força de trabalho, era enxotado parece cachorro. Sem qualquer quase pagamento lhe corriam. Mas Manuel, se retirava só. Nunca que protestando. Ainda, na saída, ouvia o desabafo da proprietária: “ Bolas, esses miúdos são demais. Caramba. Só porque levou uns baldezitos de lixo e fez aqui umas limpezas, parece que uma pessoa ficou com dívida para a vida toda “. A proprietária, ainda se mostrando transtornada, passava a mão de carinho na cabeça de Marquinho. Era o filho, com a mesma idade que Manuel, e que distraidamente se concentrava no vídeo game. Nesse assim, se ouvia ainda alvitre de um ou outro cliente: “ É mesmo! Parecem até praga. Uma pessoa não pode estar descansada em qualquer lugar, que aparece sempre uma mão esticada. É de mais!” Nessa altura, a proprietária da lanchonete, encontrando concordância com suas palavras, aproveitava rapidamente acrescentar: “ Isso quando não te põem a mão sorrateira na carteira “. No entanto, noutras alturas, lhe recompensavam, às vezes mesmo com um cachorro. Parecia ironia - cachorro para matar a fome de cachorro.
Outras vezes, ainda até, que ele menos gostava, da janela de um prédio do largo Serpa Pinto, se ouvia um grito: Manuel! Manuel! Eram os miúdos da mesma idade que lhe gritavam do alto de um primeiro, terceiro, às vezes mesmo de um sexto andar: Sobe só aqui, Manuel. Vem depressa.
Manuel, sempre prestante, lá subia os lanços de escada para acorrer ao chamado. Da soleira de uma porta, um qualquer afortunado monadengué, herdeiro do futuro da nação, lhe entregava as notas e lhe pedia, destinando cada nota para cada artigo: daqui compra duas paracucas, daqui … compra quatro sambapitos e seis choingas. Daquele dinheiro, compra tudo de gasosas.
Ás vezes o cumbú que lhe davam, era mais do que aquele que tivera em toda a sua vida. Mas Manuel, se honrava de trazer tudo o solicitado ou, quando era caso, o troco milimétricamente acertado. Seu pagamento era, com sorte, uma vez um rebuçado, noutra uma paracuca , uma maçaroca ou uma gasosa mesmo. Às vezes, só lhe recebiam as coisas da mão, o pitéu, as bebidas e o troco. Nessa altura, antes mesmo de qualquer olhar pedinte se formar no rosto só de Manuel, este via a porta se fechar na sua cara e, pouco antes do estrondo dos trincos de ferro no ferro, só ouvia, já abafado do outro lado: obrigado! Era por isso, João Russo lhe dizia: você, não é menino de rua. Você é burro de carga.
No Manuel Só, todos lhe desfazem e esfalfam. João Russo, quase irritado lhe dizia: hum, hum, mas você num aprende mesmo. Por isso é que te abusam. Boelo!!!
Manuel se punha ali, absorto nos seus pensamentos, sem riso nem choros. Essas são emoções que nunca que ninguém lhe conheceu. Nem mesmo no cerro em se dispersou dos pais, em que se ouviam gritos de balas. Nem mesmo aí, a terra lhe conheceu emoção de choro, raiva ou sorriso.
Nesses tempos que os pariu, crianças como Manuel Só, havia-os aos pontapés, descalceando em bandos pela cidade, gastando planta de pés poeirentos de amarguras e abandono. Manuel se mantinha circunspecto no Serpa Pinto.
Nessa manhã, sô Pereira, quando assomou o seu cigarro matinal no portão, esperando encontrar Manuel Só de Rodin, sentado na sua pedra filosofal, se espasmantou. A pedra, banco dos pensamentos matinais do dengué, se atrevia estranhamente a estar só. Era estreia em dois anos de conhecimento do puto. Não ligou, talvez Manuel se atrasara no sono. Lhe procuraria mais tarde. Ía lhe aguardar para mata-bicharem juntos, como era usança.
Sô Pereira, voltou no portão mais uma e mais uma vez, e outra vez, até que quando a tarde já se assenhoreava da manhã, se preocupou. Entrou de novo e se apossou de chapéu e bengala, arruando os passos, ainda indecisos de onde iniciar a busca. Se abeirou primeiro nas bancas de chão aonde se vende a paracuca e a maçaroca. Mas nada. Ninguém que viu Manuel hoje.
Rodopiou todo Serpa Pinto, nos bares e nas lanchonetes, mas em vão. Ninguém que morou, nem por momentos, o olhar em Manuel Só. Apesar de saber da exclusividade do Serpa Pinto na viandagem do garoto, se atreveu passar as fronteiras e lhe procurar para lá, até porque se o dia já tinha se iniciado com um desábito, mais um seria também possível. Mas puff! Nem um rumor do puto. Parecia se evaporou na bruma da noite.
O mais velho se esgotou, e quase se dando de vencido, retornou em casa. Se pôs distraidamente interrogonumbático, sem mata-bichar nem almoçar em frente a televisão. Se despertou de um salto do seu estado alheado e elevou o volume do aparelho. Se anunciava como notícia de última hora, em directo, “ o achamento do corpo de uma criança na lagoa do Quinaxixi, aparentando ter entre oito e doze anos. No momento ainda não se sabiam as causas da morte, mas se suspeitava ser um dos muitos meninos de rua que deambulam pela zona, que num descuido terá caído na movediça lagoa “. Ainda a nora tecia seus comentários sobre os miúdos de rua, que são uns drogados e bandidos e que de facto, com tanta borga só podiam acabar assim, e que isto e assado, cozido, já sô Pereira corria na abertura do portão p’ra rua. Se esquecera até da bengala, parecia agora até era passo corrido de homem moço e não de idoso.
Junto a lagoa fatídica, se achegou na multidão lhe somando mais multidão, e sobre os ombros espreitou. No meio dos transeuntes curiosos, os mais desinformados perguntavam sobre o que é que se ocorreu. Se ouviu pronta resposta de um menos desinformado: É mais um canuco de rua que se foi. Parece que se afogou na lagoa.
Mas e como é que foi? - se perguntavam uns.
Parece num foi acidente. Parece lhe mataram – alvitrava um outro, parecia era multidão que estava ali a mais tempo que o primeiro.
À medida da desenvoltura dos relatos imprecisos, o côta se aproximava da frente da multidão. Quando se pôs mesmo bem na arquibancada da primeira fila, eis que os homens rã tiram da lagoa o corpo, e lhe poisaram no chão, mesmo nos pés do olhar da multidão.
Sô Pereira, lhe reconheceu de imediato. Mesmo partido de um braço, reconheceu o corpo surrado de Manuel Só. Lhe bastava mesmo só ter olhado na ausência dos incisivos frontais, para lhe saber ser o seu dengué, companheiro do mata-bicho.
De impulso, se ofereceu para reconhecer o corpo. Indicou que conhecia o menino do corpo machucado e esbulhado de vida. Seu nome era Manuel. Manuel Só.
No reconhecimento lhe confirmaram as suspeições. Manuel fora assassinado. Se identificaram os guardas da Câmara, aonde o miúdo dormia num papelão debaixo das arcadas, como os prováveis autores do homicídio. Haviam duas testemunhas. Parece que o canuco não aceitou, por qualquer motivo inexplicável, ser chamado de deslocado. Se gerou um bate-boca. Os guardas, que parece, estavam um pouco embriagados, desconseguiram argumentar com a criança. Se enfureceram, contra argumentando com a força bruta das botas matumbas. Uma testemunha diz que ainda ouviu lhe chamarem, já no corpo inanimado, que era um reaccionário.
Estranhamente, o rosto do corpo mortificado de Manuel, prostrado naquele chão, se mostrava de sorrisos. Que era um sorriso ninguém duvidava. Se era por no fim o apelido que lhe puseram lhe ser injusto, se era por qualquer outro motivo, num se sabia. Mas que era sorriso, sem dúvida era. Parecia, e não se restava já dúvida, tinha morrido a sorrir, ele que em vida nunca que ninguém lhe viu de sorrisos, nem choros. Até parece não queria morrer sem sorrir.
No dia seguinte, sô Pereira se dirigiu na beira da lagoa do Quinaxixi, vestido de negro, e lhe alimentou com uma coroa de flores em memória do amigo de rua. A coroa boiava, parecia a lagoa num queria lhe engolir. Ao lado, atirado por João Russo, boiava um ramo de trepadeiras entrelaçadas com flores de acácia rubra, colhidas no chão das arcadas da Câmara, defronte às quais se inamoviam chorosas acácias. E no tempo em que a auréola de flores bailanceava com a trepadeira entrelaçada com flores de acácias, se podia ler no pano dourado do cimo: AQUI, MORREU MANUEL SÓ DE SORRISOS FINDOS. MORAVA NO SERPA PINTO, NUMA TRAVESSA DA RUA, DE UM BECO AO LUAR. DEBAIXO DAS ARCADAS, SEM NÚMERO DE PORTA, ELE DORMIA EM CAMA DE PAPELÃO.
Nesse fim de tarde, aquando da partida do velho, no canto do olho se lhe reluziu uma lágrima, reflectindo um raio de sol que ofuscou.
No Serpa Pinto, durante uma semana, ainda houve quem pensasse em Manuel para carregar a exaustão das compras do mercado, para acarretar água ou deitar dejectos de fartura, mas como ele não aparecesse, ninguém também se lhe perguntou. Se esqueceram de sua existência e lhe substituíram por outro deslocado.

publicado por Lancelote às 19:06
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